Quando se contrata Mário Sérgio como técnico, se adquire o pacote completo, suas virtudes e defeitos. O técnico é muito dedicado em trabalhar para anular os pontos fortes do adversário, mas não tem a mesma clarividência para preparar o time para explorar os pontos fracos do oponente e vencer o jogo.
Em teoria, a escalação do time para o início do jogo era uma boa escolha. Era ofensiva, com Bruno Santos, Tadeu, Ramon e Lima. Privilegiava ainda a força física e a boa estatura para disputar o jogo pelo alto, já que a partida seria disputada debaixo de muita água e depois de quase 48 horas de chuvas ininterruptas sobre Florianópolis. Aliás, o jogo acabou há mais de três horas e continua chovendo.
Só que ao armar seus times, Mário Sérgio não leva em conta um fator que ainda é decisivo em jogos de futebol: o talento individual. Por mais que o jogo esteja nivelado por baixo, por mais que a obediência tática e o preparo físico sejam fundamentais para o bom desempenho de um time, ainda é o talento individual que faz a diferença.
Tanto é que o gol do Figueira, logo aos 12 minutos, saiu de uma bela jogada individual de Marquinho, que foi ao fundo cruzar para a conclusão de Tadeu depois da ajeitada de Ramon de cabeça e da furada de Lima.
Àquela altura o gramado ainda não estava tão castigado pela chuva inclemente, mas mesmo assim, as melhores jogadas durante todo o jogo continuaram saindo dos pés de Marquinho, driblando lama, poças d’água e adversários.
Só que Marquinho foi desperdiçado quase durante todo o jogo na ala esquerda, com um time que passou a partida toda jogando na base do chutão. No primeiro tempo, com mais método e organização. No segundo tempo, se retraindo demais, muito por culpa de Mário Sérgio, e se mostrando nervoso além da conta para segurar um jogo que deveria estar sob controle.
No intervalo, Mário Sérgio desperdiçou a chance de melhorar o time. Ramon e Lima jogando juntos é muito castigo para quem teve coragem de ir ao estádio debaixo de tanta água para ver um jogo que já se antevia tecnicamente ruim. Brigam com a bola, desperdiçam boas jogadas, não arrumam o lance para os companheiros, não armam, não concluem e não marcam.
Mário Sérgio viu isso e os tirou nos vestiários. Só que aí vem o retranquismo exacerbado. Não precisava ser ousado, bastava trocá-los pelo volante Jackson, como fez, e Rodrigo Fabri. Ou então, ser um pouco mais conservador e botar Jackson e Alex Cazumba, passando Marquinho para o meio-campo.
Não, Mário Sérgio tinha que passar a chave quádrupla, a tranca, o pega-ladrão e ligar o alarme para fechar completamente a defesa. Tinha que botar mais um zagueiro (Bruno Aguiar) além do cabeça-de-área. Tudo para defender o 1 a 0.
Assim, o Ipatinga veio para cima. Sem qualidade, sem organização, sem talento. Só que o Figueirense acirrou sua tendência para chutar pra todo lado e, desse modo, permitiu ao Ipatinga rondar a área quase o tempo todo.
O time ficou com uma formação improvável. Jackson de ala direito, Bruno Aguiar, Perone e Asprilla na zaga, Marquinho na esquerda; com Gomes, Magal e Diogo num meio absolutamente desprovido de talento e capacidade de criação. Quando atacava apenas três ou quatro jogadores se aventuravam nas imediações da área do Ipatinga. O resto ficava na altura do meio-campo.
Mesmo assim o time ainda criou chances de gol. Quase todas em jogadas de Marquinho. Gomes perdeu um gol na cara do goleiro. Tadeu passou da bola num cruzamento de Marquinho. Este mesmo enfileirou três ou quatro adversários para bater da entrada da área para concluir com a perna ruim, a direita. Um muito possível pênalti não foi marcado em Bruno Santos.
E aí o castigo veio da forma mais dolorosa possível, sofrendo o gol de empate aos 48 minutos do segundo tempo. Injusto? Não. O Figueirense abdicou do direito de ditar o ritmo do jogo. Quando isso acontece, os imprevistos também ocorrem.
Assim, três pontos praticamente certos foram reduzidos a um. O resultado será tão mais ruim quão pontuarem os adversários na luta contra o rebaixamento. O Atlético-PR já perdeu do Inter neste sábado. Vasco, Náutico, Portuguesa e Fluminense têm jogos difíceis no domingo. Se perderem, pelo menos o Figueira aumenta sua vantagem em um ponto.