Menosprezo custa caro

Renato Gaúcho é um fanfarrão. Quando perde costuma a transferir a responsabilidade para os jogadores. Uma de suas frases clássicas é “eu já disse para eles que quando eles fazem o que eu digo a gente vence”. Como para bom entendedor meia palavra basta, o recado está dado. Quando seu time perde é porque os jogadores não fizeram o que o fanfarrão falou.

Contra o Figueira, Renato botou o time todo no ataque e escancarou a avenida para o Figueira desfilar. Escalou um ataque com Leandro Amaral e Alan Kardec, recuou Edmundo para o meio junto com Madson e Alex Teixeira. Botou dois laterais que se mandam para o campo ofensivo e deixou a marcação por conta de dois zagueiros lentos e um solitário volante, Victor, que, se o árbitro não fosse caseiro, teria sido expulso antes dos cinco minutos de jogo, depois de uma entrada criminosa em Bruno Santos.

Foi aí que a soberba e o menosprezo de Renato Gaúcho ao Figueira cobraram a conta, bem cara, por sinal. Ele deve ter pensado: “vou enfrentar um time pequeno, que não vence há sete jogos, está descendo a ladeira, vou ter estádio cheio e tudo a favor. Vou passar a patrola”. Se deu mal. Este blog aposta que se o adversário fosse São Paulo, Palmeiras ou Grêmio, Renato não poria em campo uma escalação tão faceira e adepta do futebol alegre. Pois, ainda bem, que pôs. Fez a alegria da torcida do Figueira, que, penhorada, agradece.

Os destaques da noite

Quase todo mundo jogo bem no Figueira. Wilson esteve inseguro em alguns lances, mas não comprometeu. Bruno Perone bobeou em algumas saídas de bola, mas esteve bem na marcação. Alex deu outra qualidade à defesa alvinegra. Sabe defender e sabe jogar. Asprilla até gol fez. Diogo fez uma partida correta, embora coubesse a ele marcar Leandro Amaral nos escanteios e tenha cochilado no primeiro gol do Vasco. Cazumba foi a nota destoante, esteve sempre numa rotação abaixo do resto do time e foi acertadamente substituído no intervalo. Magal, Cleiton Xavier e Marquinho, com destaque para o último, comandaram o meio-campo. Bruno Santos e Tadeu não brilharam em termos de conclusões a gol, mas foram fundamentais na pressão sobre a zaga do Vasco e no pivô para a aproximação dos meias, embora Tadeu tenha cometido uma pixotada bisonha no segundo gol vascaíno. Mário Sérgio acertou em tudo.

Foi a melhor partida do Figueira no campeonato. Finalmente uma exibição em que as virtudes superaram de longe os defeitos.

Cabeça de treinador

Em uma coisa Mário Sérgio mudou: agora não faz mistério e anuncia o time titular com dias de antecedência. Tem sido assim desde que retornou ao Figueira. Assim, confirmou que Bruno Perone ocupa a vaga de Gomes, suspenso, e Tadeu entra no lugar de Ramon, contundido.

Este blog nem vai entrar muito no mérito das escolhas, apesar de ter outras preferências. As justificativas é que demonstram como é difícil entender cabeça de treinador.

Mário Sérgio disse que Bruno Perone entra para conter a bola área do Vasco. Vi alguns jogos do time carioca e nenhum deles me chamou a atenção pela insistência em cruzamentos altos para a área adversária. Aliás, isso não é a melhor alternativa para um time que tem Leandro Amaral e Edmundo como principais jogadores de criação e conclusão de jogadas. Alan Kardec, que deve jogar contra o Figueira, é um jogador alto mas não é tão exímio cabeceador assim para justificar a escalação de um jogador só para marcá-lo. Ainda mais quando Vagner Diniz, principal responsável pelas jogadas pelos lados de campo não vai jogar por estar contundido.

A preocupação maior, na opinião deste blog, seria com que Edmundo, Leandro Amaral e Madson podem fazer com a bola no chão. Esse é o maior perigo que o Figueira vai enfrentar em São Januário.

A justificativa pela entrada de Tadeu é mais reveladora de uma postura de Mário Sérgio já criticada por este blog: a exacerbada obsessão em anular o adversário. Tadeu não vai jogar porque pode prender dois zagueiros, jogando fixo pelo meio. Não vai jogar porque pode fazer o pivô e segurar a bola para a aproximação dos meias. Não vai jogar porque pode raspar uns bicões de cabeça e ajeitar a bola para os outros. Vai jogar, segundo Mário Sérgio, porque dá mais combate à saída de bola adversária.

Então já sabemos de antemão o que o Figueira vai fazer para não perder o jogo. Difícil é descobrir o que fará para ganhar a partida. Uma dupla de ataque com Tadeu e Bruno Santos, este como segundo atacante, não parece ser a melhor opção. Quem irá puxar os contra-ataques? Quem fará as jogadas de lado de campo?

Torcemos para que dê certo. Em outra ocasião, ainda com Gallo ou PC Gusmão, criticamos a escalação para determinado jogo e no fim foi uma das melhores apresentações do Figueira no campeonato.

Fazer força para não cair

Na quarta, o Fluminense não passou de um empate no Maracanã contra um Goiás com nove jogadores desde os 20 minutos do segundo tempo. Na quinta, a Lusa levou 3 a 1 do Vitória depois de tomar 2 a 0 antes dos 15 minutos de jogo. O Figueirense ganhou um mísero ponto dos últimos 21 disputados e mesmo assim não entrou na zona do rebaixamento. Tem grandes chances de não entrar mesmo que não vença o Vasco.

Então está na hora do time parar de fazer força para cair e mirar sua energia para evitar o rebaixamento. As exibições nos jogos contra Cruzeiro e Atlético-MG dão esperança que o pior já passou. A concorrência está fazendo o possível para ser pior que o Figueira. Cabe ao time aproveitar isso.

O formulismo voltou

Na última terça-feira, os clubes que participam da primeira divisão do campeonato catarinense se reuniram e aprovaram a nova fórmula de disputa. Como o calendário para competição segue igual e o número de clubes caiu de 12 para 10, resolveram espichar a fórmula do torneio.

Trocando em miúdos, uma medida acertada – a redução no número de clubes – gerou outra, equivocada: a volta do formulismo, das complicações e dos jogos repetidos com o único objetivo de engordar o caixa dos clubes.

Poderiam aproveitar o número menor de participantes para começar o campeonato mais tarde ou para reduzir a quantidade de rodadas no meio de semana. Os times, principalmente os que disputam as séries A e B, têm pouquíssimo tempo para se preparar depois da volta das férias e já de cara são obrigados a disputar uma interminável seqüência de rodadas às quartas e domingos.

Nada disso foi feito. Preferiram manter o turno e returno, mas criando um quadrangular semifinal reunindo os campeões dos turnos mais dois classificados por critério técnico. Esse quadrangular vai ser disputado em ponto corrido, ida e volta, todos contra todos. Aí os dois melhores se enfrentam na decisão do campeonato.

Ou seja, os dois finalistas vão se enfrentar seis vezes no campeonato. Para piorar, se o mesmo time ganhar turno e returno, não será declarado campeão. Ganhará dois pontinhos extras para começar o quadrangular semifinal.

Mas tem mais. O campeonato começa de novo no meio de janeiro (dia 18), bem quando pelo menos metade da torcida está curtindo suas merecidas férias. Com o horário de verão e a transmissão televisiva, teremos novamente aqueles jogos começando às 16 horas (15 horas na realidade) sob o calor escaldante.

O clássico do 1º turno será no Scarpelli numa, pasmem, quarta-feira. O do returno, no campo do time do Sul da Ilha, num domingo.

Se queriam, dar mais chances a todos os participantes, principalmente os ditos grandes, em vez de limitar a disputa ao campeão do turno contra o campeão do returno, poderiam simplesmente fazer turno e returno direto, classificando os quatro primeiros para o mata-mata semifinal. O primeiro pegaria o quarto colocado e o segundo enfrentaria o terceiro. Os vencedores fariam a decisão. Mais simples, mais curto e menos repetitivo.

Como o Figueira representa Santa Catarina na Copa do Brasil junto com o Criciúma, a pauleira vai ser grande. Um campeonato estadual com 26 datas, turbinado por jogos decisivos pela principal competição nacional do primeiro semestre. O sucesso vira castigo.

Clima ferve em São Januário

Eurico Miranda anunciou que volta ao estádio para “torcer” pelo Vasco no jogo contra o Figueira. Tita, técnico recém-demitido, concedeu entrevista e detonou seu sucessor, Renato Gaúcho, o elenco e o velho Eurico. A torcida invadiu o treino para protestar. A diretoria do clube anuncia liquidação de ingressos e distribuição de bandeirinhas para os torcedores.

O clima ferve em São Januário e o jogo de sábado contra o Furacão Alvinegro passa ser mais decisivo ainda para os destinos do clube cruzmaltino no campeonato. O Vasco vai querer ganhar na marra e o Figueira precisa saber enfrentar essa panela de pressão num estádio onde normalmente não costuma se dar bem.

Um empate não é mau negócio, mesmo com a possibilidade de entrar na zona de rebaixamento dependendo dos resultados paralelos. Uma derrota não é uma sangria desatada, mas aumenta a pressão por uma vitória contra o Palmeiras.

O melhor é mesmo a vitória. Aí é possível negociar um empate com o Palmeiras, na pior das hipóteses, para matar o Ipatinga na seqüência.

Quem entra na vaga de Ramón e Gomes?

Gomes, suspenso, está fora. Ramón, contundido, está quase fora. Para o lugar de Gomes se cogita a entrada de Rafael Lima. Sou mais Bruno Aguiar. É posicioná-lo pela direita e escalar Alex para fazer a sobra no lugar de Gomes.

No ataque, se a lógica for não mexer na estrutura da equipe e escalar um meia como segundo atacante, função que Ramón desempenhava, a alternativa é Rodrigo Fabri. O time pode perder na bola área, principalmente defensiva, mas ganha em velocidade e qualidade técnica.

A outra opção cogitada não me agrada. Escalar mais um volante para deixar Bruno Santos ainda mais isolado na frente é convidar o Vasco a dar sufoco. A marcação pode até melhorar, mais a possibilidade de sair no contra-ataque vai ficar ainda mais remota. E aí vai ser mais sofrimento.

A chave da salvação

A permanência do Figueira na série A está diretamente ligada ao seu desempenho contra os times que ocupam do 11º lugar para baixo na tábua de classificação, a começar pelo jogo contra o Vasco no próximo sábado em São Januário.

Este blog fez um levantamento que mostra que o aproveitamento do Furacão Alvinegro muda da água para o vinho quando enfrenta os melhores times do campeonato.

Considerando a atual classificação, o Figueira fez 15 jogos contra os 10 primeiros do campeonato e ganhou apenas sete dos 45 pontos em disputa, um aproveitamento de pífios 15,5% dos pontos possíveis. Foram uma vitória, quatro empates e 10 derrotas.

Já quando pega do 11º colocado em diante – repetimos, pela classificação até a 27ª rodada –, a situação muda: em 12 jogos, ganhou 22 pontos dos 36 possíveis, 61% de aproveitamento. Foram seis vitórias, quatro empates e apenas duas derrotas.

Confira o desempenho alvinegro até a 27ª rodada:

Até o 10º colocado:


1º Palmeiras – empate (fora)

2º Grêmio – derrota (casa)

3º Cruzeiro – duas derrotas

4º Flamengo – duas derrotas

5º São Paulo – empate (casa)

6º Botafogo – derrota (casa)

7º Goiás – empate e derrota

8º Internacional – empate (fora)

9º Coritiba – vitória (casa) e derrota (fora)

10º Vitória – duas derrotas

Campanha: uma vitória, quatro empates e 10 derrotas

A partir do 11º colocado:

11º Sport – vitória (casa) e derrota (fora)

12º Atlético-MG – dois empates

13º Náutico – vitória (fora)

14º Santos – vitória (casa)

16º Atlético-PR – empate (fora)

17º Lusa – empate (fora) e vitória (casa)

18º Ipatinga – vitória (fora)

19º Vasco – vitória (casa)

20º Fluminense – derrota (fora)

Campanha: seis vitórias, quatro empates e duas derrotas

Vitórias obrigatórias

Em casa, o Figueira tem que vencer Ipatinga, Atlético-PR, Fluminense e Náutico. Precisa ainda buscar mais três pontos, no mínimo, nos jogos contra Vasco e Santos fora do Scarpelli. Faria assim mais 15 pontos, chegando a 44 e praticamente confirmando a vaga na série A de 2009. Todos estes confrontos têm o peso adicional de serem os famosos “jogos de seis pontos”. Vencer significa impedir que o adversário direto pela permanência na série A também pontue. Se for preciso, o Furacão Alvinegro pode negociar ainda empates contra Palmeiras e Inter, em casa, e com o Botafogo, fora.

Este é o mapa da salvação: os confrontos contra os rivais diretos. Em boa medida, o levantamento acima confirma o que este blog vem dizendo desde o início do campeonato, que o Figueira não deve nada a nove ou 10 outros times da competição.

É interessante notar, infelizmente, que o time está indo contra sua própria reputação, construída ao longo dos últimos sete anos de série A. Antes o Figueira tinha a vocação de Robin Hood. Tirava dos grandes e entregava para os pequenos (em termos de desempenho no campeonato). Agora é o contrário. O time está sendo massacrado pelos grandes, mas leva vantagem contra os pequenos.

Precisa confirmar isso na reta final para garantir o oitavo ano consecutivo na primeira divisão.