Ninguém chora pelo Figueira

A não ser sua própria torcida, ninguém chora pelo Figueira. Aproveito o momento e lembro uma frase dita pelo jornalista José Maria de Aquino na época em que trabalhava no Sportv.

Na época, Aquino se referia ao Criciúma, lutando então contra o rebaixamento para a série B. Dizia ele que “ninguém chorava pelo Criciúma” porque o time tinha uma torcida pequena para os padrões nacionais e porque seus adversários, além da viagem de avião, ainda tinham que encarar algumas horas num ônibus numa estrada horrorosa (a ainda não duplicada BR-101) para enfrentar um adversário chato em um ambiente hostil.

Tirando as horas de viagem por terra, o mesmo se aplica ao Furacão Alvinegro. Ninguém chora pelo Figueira, a não ser sua própria torcida. Com um agravante, até gente de Florianópolis joga contra.

Toda essa introdução foi para contextualizar os acontecimentos da última quinta-feira, com o apagão que adiou o jogo contra o Fluminense. Dois casos foram exemplares da má vontade com o Figueira, não se sabe se por má-fé ou ingenuidade.

A primeira foi a do veterano comentarista Roberto Alves, na rádio CBN Diário. Depois do segundo apagão no Scarpelli, aos 15 minutos de jogo, com o placar marcando 1 a 0 para o adversário, Roberto Alves entrou na linha para um bate-papo com Virgílio Elísio, diretor de competições da CBF, e disse: “o Fluminense queria a continuidade do jogo e que ao Figueirense não interessava retornar ao mesmo, pois este estaria levando um totozinho do Fluminense”. Logo depois, Rodrigo Prisco entrou na transmissão para questionar o comentarista. No dia seguinte, o Figueira divulgou nota à imprensa e aos sócios, repudiando a afirmação (leia a íntegra no blog do Tainha).

No dia seguinte, o diretor técnico da Celesc, Eduardo Sitônio, foi entrevista pelo Jornal do Almoço, da RBS TV, para explicar o que ocorreu. Sitônio, diretor já na época do apagão que deixou a ilha no escuro por 55 horas há cinco anos, afirmou que fitas metálicas arremessadas pela torcida foram as responsáveis pelo curto circuito nos fios de alta tensão que motivou o blecaute. Disse mais: era um ato de vandalismo, mesmo sem intenção.

Ora, primeiro que a torcida não arremessou as fitas em direção aos fios. O vento forte carregou as fitas para lá. Segundo, não existe vandalismo sem intenção. Por essa lógica absurda, se meu carro for abalroado por um caminhão e eu bater num poste, derrubá-lo, morrer e ainda cortar a luz da rua, além de morto serei vândalo. É uma asnice sem tamanho.

Agora, façamos um exercício de futurologia. Suponhamos que o Flu perca para o Vasco neste domingo. Apesar do tricolor ter um time melhor e viver um momento mais positivo, é um clássico e tudo pode acontecer. Suponhamos ainda que o Figueira vire o jogo na quarta-feira contra o Fluminense e o jogue de volta à zona de rebaixamento. Será que o tricolor das Laranjeiras não poderá usar as rematadas tolices ditas por Roberto Alves e Eduardo Sitônio para armar um circo, querendo comprovar que o Figueirense teve participação direta e foi responsável pelo apagão porque perdia o jogo?

Não esqueçamos que se trata do velho Fluminense, para quem a expressão “tapetão” foi criada. O time é bom de bastidores desde sempre. Foi rebaixado duas vezes do brasileiro da série A e só caiu de fato na segunda vez. Voltou da série C direto para a A, sem passar pela B.

Alguém acredita que o jogo foi remarcado para quarta-feira e não para o dia seguinte porque o Prisco ou o Delfim pediram à CBF? Ou foi por que o presidente do clube carioca, Roberto Horcades, é médico particular de Ricardo Teixeira e até foi indicado para a comissão médica da Fifa por isso, assim decidiu? Alguém duvida que se o Fluminense quisesse jogar na sexta-feira o jogo seria naquele dia?

Assim, por má-fé, ingenuidade ou simplesmente absoluta indiferença ao Figueirense, gente da terra ajuda a atrapalhar. Podiam, ao menos, fecharem a boca.