Eles têm que estragar

A CBF tinha melhorado as condições de disputa da série C. Antes, a competição tinha geralmente 64 clubes divididos em 16 grupos de quatro, classificando-se os dois melhores de cada grupo para a fase seguinte. A partir daí era na base do mata-mata até o quadrangular final, quando os dois primeiros garantiam o acesso para a série B. O time que entrava na competição só tinha garantido então os seis jogos da primeira fase. 

Com o aumento das vagas de acesso de duas para quatro e a transformação do mata-mata em quadrangulares e da fase final em octogonal, melhorou um pouco. Um time mais organizado e estruturado não jogava mais toda a sua sorte em apenas duas partidas eliminatórias.


A situação melhorou mais ainda com a redução dos participantes de 64 para 20 e a criação da série D. Parecia que o futebol brasileiro passaria a contar então com uma terceira divisão mais organizada e atraente.


Só que a CBF têm que estragar até suas boas idéias. A Série C será disputada em quatro grupos de cinco equipes, com as duas melhores de cada chave passando para a segunda fase. Aí volta o maldito mata-mata. Pior, como são quatro vagas para a série B em disputa, a fase eliminatória terá valor até as quartas-de-final, que serão na prática a decisão dos quatro que sobem para a segundona. A partir das semifinais, o campeonato vira um torneio por uma taça que vale o mesmo que chegar em quarto lugar. 


Pior ainda a CBF fez com a série D. Serão 40 clubes em 10 grupos de quatro, com os dois melhores passando para fase seguinte. Aí começará um inédito mata-mata com 20 clubes, ou seja, sobrarão 10 para a terceira fase. Como o passo seguinte é só sobrar cinco, a Confederação resolveu que vai selecionar três entre os cinco eliminados para juntar oito e aí fazer uma fase de quartas-de-final como manda o figurino. 


Não seria mais fácil, para dizer o mínimo, juntar os 40 clubes em oito grupos de cinco? 

Ninguém na CBF decorou a tabuada?

A pá de cal em 2008

Além de servir para registrar mais um capítulo da supremacia alvinegra em clássicos, o jogo do último domingo precisa ter o significado simbólico de ser a pá de cal em 2008, o triste ano que ainda não havia terminado para o Figueira.

Com técnico novo, o Furacão Alvinegro conseguiu, mesmo cercado de problemas e limitações, jogar finalmente uma partida de forma mais regular e consistente. O time não é tão ruim como os resultados e algumas apresentações fizeram parecer. Há uma base razoável, composta de alguns jogadores de boa qualidade que, se bem preparada e orientada, contando ainda com a adição de reforços para algumas posições, pode fazer uma boa figura na Copa do Brasil e, principalmente, uma grande campanha na série B.

Não há muito o que se esperar do campeonato catarinense. Estes últimos três jogos vão servir mais para Roberto Fernandes conhecer melhor o elenco e para, junto com a direção do clube, definir quem sai e quem chega. 

 
O principal é que o espírito guerreiro e competitivo mostrado no clássico não seja uma exceção e sim uma referência para o time para o resto da temporada. O que se espera é que o time jogue dali para mais.

2008 terminou, finalmente. Que venha um grande 2009 para a torcida alvinegra.

Cortina de fumaça

Com a inestimável e valorosa colaboração de boa parte da imprensa, a direção do Avaí apela para velhos artifícios para desviar o foco sobre o que aconteceu dentro de campo no último clássico. Em vez de usar seu tempo para analisar o jogo e tentar explicar porque o super-esquadrão avaiano sofreu para empatar com o limitado time alvinegro, além de falar sobre o gol azulejento em impedimento claro, os programas esportivos deitaram falação sobre fatos extra-campo. A faixa tirada, a confusão no camarote, o comportamento selvagem de torcedores avaianos nos arredores do estádio.

Até uma lamentável nota de repúdio, bem avaliada pelo blog do Tainha, a direção avaiana divulgou, utilizando-se da surrada tática de mudar de assunto quando lhe interessa.

É impressionante como a direção do Avaí se notabiliza pela irresponsabilidade e pelo amadorismo. É um comportamento quase criminoso acirrar os ânimos entre as torcidas desta forma. E não é a primeira vez. Eles deviam saber que tem torcedor de miolo mole que acredita nessas pataquadas e depois sai por aí munido de fogo, pau, pedra e bombas pondo em risco a vida alheia.

Em 2006, torcedores avaianos atearam fogo em cadeiras do Scarpelli depois de ver seu time levar mais uma traulitada do Figueira. Não houve nota de repúdio, não houve discursos inflamados, não houve incitação à violência. Simplesmente lamentou-se o ocorrido e bola para frente.

A diretoria avaiana, que adora copiar as iniciativas do Figueira, deveria seguir o exemplo neste caso também.

Prova de real grandeza

O que acontece nos clássicos entre Avaí e Figueirense é muito simples de explicar.

Se o Figueirense está bem, vence, e bem. Se está mal, vence, às vezes bem. Se está muito mal, empata. Ou melhor, para ser justo, o Avaí consegue arrancar o empate. É simples assim.

Não é opinião. É fato. Dos últimos 26 clássicos, de 2001 para cá – para ficar só nesse século –, o Avaí ganhou três. O Figueira venceu 13 e ocorreram 10 empates.

Então essa conversa de que clássico não tem favorito, que quem está pior vence, que tudo pode acontecer, é papo para boi dormir. Balela pura. A verdade é uma só. Vitória do Avaí em Clássico é zebra. Acontece de vez em quando.

Os dois clássicos deste ano comprovam cabalmente esse fato. Nos últimos tempos, nunca o Figueira esteve tão mal e nunca o Avaí esteve tão bem. O Furacão Alvinegro estava com a moral lá embaixo, com um time despedaçado, limitado, desfalcado, cheio de problemas. Nos dois jogos foi superior por largos períodos, saiu na frente e foi o Avaí que teve que correr atrás do empate.

A cada clássico o Figueira prova sua real grandeza. A torcida se inflama. O time se agiganta. Vai buscar forças lá no fundo da alma e mostra a força da camisa que veste. Do outro lado, eles se apequenam, se apavoram, amarelam, tremem. Chegam ao ridículo de comemorar empate dentro de casa. Ué, não é o Figueira que tem um time que não serve para a série C? Não são eles que têm um esquadrão digno de série A?

Engraçado que esses números citados acima, estampados nas estatísticas, sequer merecem comentários da imprensa da capital. Deve ser para não melindrar a torcida avaiana. Devem ser os famosos panos quentes que aparecem o tempo todo pelas bandas da Ressacada, mas sempre chegam gelados no Scarpelli.

Torcida de pijama

A campanha do Figueira não anima ninguém, a torcida anda irritada com o clube, o Clássico do turno foi numa quinta-feira, às 10 horas da noite. Mesmo assim, o público, qualificado de decepcionante por muita gente, foi superior ao da Ressacada neste domingo. O público total no Scarpelli foi de 12.326. No Sul da Ilha não passou de 11.706. É a torcida de pijama comprovando a fama.

Ficou feio

O tal time da série A, que ia patrolar o Figueira, precisou de um gol em impedimento, no final do jogo, para escapar da derrota. Mais feio que isso, só comemorar o empate.

Calado é um poeta

O técnico avaiano Silas faz jus a cada rodada da definição do velho Romário. Calado, Silas é um poeta. Abre a boca e só sai besteira. Todo jogo que o time não ganha, é porque o adversário chutou uma, duas ou três bolas em gol e acertou todas. O empate servia para o Avaí e então foi bom porque tirou o Figueira da parada. 
 
Querido Silas, o Figueira já estava fora da parada. O Avaí é que perdeu a chance de ter gordura para queimar, pois na próxima rodada vai pegar o Joinville fora de casa. Será que o JEC, mesmo já classificado, vai desperdiçar a chance de tirar um concorrente direto da parada? O empate só não foi pior para o Avaí porque o Atlético de Ibirama também empatou em casa. 

 
Para quem manteve o técnico, o elenco e ainda reforçou a equipe, o Avaí faz um campeonatozinho pífio. Era para estar nadando de braçada e vai ter que cortar um dobrado para garantir sua vaga entre os quatro semifinalistas.

Silas, fala menos e trabalha mais. Em boca fechada não entra mosca.

Pouco a perder, muito a ganhar

Pode ser paradoxal, afinal trata-se de um Clássico, mas é assim que o Figueira deve encarar o jogo deste domingo contra o Avaí na Ressacada.  
 
O jogo é na casa deles, o favoritismo é deles, a obrigação de vencer é deles, quem tem mais a perder são eles. Trata-se de dar a devida responsabilidade a quem a tem. E, nesse momento, é o Avaí.

 
O Figueira tem que entrar então com aplicação, garra e apetite. Como disse Roberto Fernandes, é nessa hora que um time mostra sua grandeza. Coisa, aliás, que o Figueira tem feito com freqüência quando enfrenta o Avaí. 

 
Muita gente lembra-se do Clássico na Ressacada no segundo turno do campeonato de 2007, quando o Avaí brigava por uma vaga na fase decisiva enquanto o Figueira não tinha mais chances e o Furacão Alvinegro venceu com um gol de Ramon no final da partida. 

 
Só que a situação no primeiro turno daquele ano também foi parecida. O jogo foi na nona rodada, o Figueira tinha apenas seis pontos ganhos em oito jogos e vinha de duas derrotas consecutivas, para o Metropolitano fora (1×2) e Próspera (1×3) no Scarpelli. Os avaianos estavam crentes que iam passar o trator sobre o Figueira. Afinal, se o Próspera tinha metido três… Resultado final: 3 a 0 para o Figueira, com três gols de Ramón. 

 
Hoje, o Avaí está melhor e o Figueira está pior, o que só aumenta a responsabilidade para o lado deles. Se o Furacão Alvinegro vencer, ganha uma motivação extra logo no início do trabalho de Roberto Fernandes. Se perder, a partir de segunda-feira começa a pensar única e exclusivamente na Copa do Brasil e, principalmente, na série B, o grande objetivo da temporada. Pouco a perder e muito a ganhar, portanto.

Um novo começo

Em tese, Roberto Fernandes tem o perfil do técnico que pode fazer um bom trabalho no Figueirense. É jovem, mas não é inexperiente. Tem bons trabalhos no currículo e ambição de alçar vôos maiores. 

Junto com ele vem sua comissão técnica, por isso a saída do preparador físico Hudson Coutinho. Já a demissão do coordenador técnico e então treinador interino, João Batista Abelha, sinaliza mudanças mais profundas na condução do futebol.
 

De positivo, a crise instalada no clube por conta do mau começo de ano traz mudanças em tempo hábil para se fazer uma boa preparação e iniciar bem a série B, principal objetivo do clube em 2009.
 

Pouco se espera do time no campeonato catarinense e novas contratações só devem vir ao final dos torneios estaduais. Roberto Fernandes chega, portanto, com tempo para reconstruir a equipe, dar um padrão tático ao time, avaliar o elenco com calma e, principalmente, colaborar na escolha de reforços que efetivamente venham acrescentar qualidade ao Furacão Alvinegro. 

Das opções disponíveis no mercado, Roberto Fernandes era uma das melhores. Assim, é preciso também que a torcida dê uma trégua para o novo técnico tenha tempo de implantar sua proposta de trabalho. Não se pode fazer terra arrasada depois de cada derrota. É preciso tempo, apoio e paciência.
 

Era preciso mudar e a mudança veio. Agora é hora de unir forças para que o Figueira tenha uma temporada vitoriosa.

Fúria incontida

Fiquei impressionado com o comportamento do comentarista veteraníssimo Roberto Alves ao final do jogo contra o Metropolitano na rádio CBN Diário.

O homem fez terra arrasada de tudo e de todos, mesmo com a vitória obtida no último minuto de jogo. Perguntado a certa altura se o time havia vencido na raça, Alves vociferou: “não vi raça nenhuma. Foi um dos piores jogos deste ano. O Figueirense não merecia vencer”. Um azedume colossal. 

 
Não foi um dos piores jogos do ano. A partida contra o Atlético Tubarão, na abertura do returno, por exemplo, foi muito pior. O time mostrou sim raça e comemorou muito a vitória, a despeito de todas as suas limitações, já de amplo conhecimento de todo mundo que acompanha futebol em Santa Catarina. A equipe melhorou no segundo tempo, botou bola na trave, botou bola raspando a trave, perdeu gol na pequena área e buscou a vitória até o fim, enquanto o Metropolitano só se defendeu e ameaçou em contra-ataques esporádicos.

 
Já ouvi muito pós-jogo em que o Avaí com times horrorosos venceu partidas com as calças na mão e os comentários foram de que o importante eram os três pontos, era a velha raça avaiana e os chavões de sempre.
Antes este blog pensava que parte da crônica aliviava para cima do Avaí por conta da bagunça crônica que é aquilo lá, por conta dos anos todos sem títulos, das dificuldades financeiras, e era rigorosa com o Figueirense porque era um time de série A, organizado, com um orçamento mais robusto.

 
Agora que a situação se inverteu, no entanto, a condescendência e o rigor não mudaram de lado. Continuam aliviando para o Avaí, que manteve a base e o técnico do ano passado e oscila entre boas e más partidas no campeonato, enquanto continuam com o mesmo rigor com o Figueirense, sem levar em conta que o time acabou de ser rebaixado no saldo de gols depois de vencer seus últimos três jogos na série A. 

 
Cabe ao torcedor do Figueira ter a capacidade de avaliar a intenção por trás da crítica – um direito sagrado – e separar o joio do trigo.