À procura do time certo

O forno foi ligado e a batata de Roberto Fernandes está assando. Não creio que seja o momento para isso, mas é óbvio que os dois jogos seguidos em casa, contra Paraná e Vasco ganharam ainda mais importância depois desta sequência de quatro jogos sem vencer.

Posso entender as voltas de Luciano Totó e Alê como um critério adotado pelo técnico. Saíram por contusão e suspensão, respectivamente, e retornaram assim que foram liberados. Só que Carlinhos e Paulinho jogaram melhor contra o Guarani do que os dois que atuaram neste sábado.

A escalação de Perone posso compreender pela absoluta falta de opção, mas aí é difícil de entender porque Rafael Lima foi afastado exatamente no momento em que três zagueiros ainda estão sem condições de jogo – Régis e Dieyson voltando de contusão e Roger Carvalho se preparando depois de um período sem jogar.

Dá a impressão que Roberto Fernandes conseguia escalar melhor quando tinha menos opções. É por isso que este blog comentou no post Hora de acalmar que era o momento de insistir em uma formação. Contra o Atlético foram quatro alterações com relação à equipe que começou a partida contra o Guarani. Só uma por necessidade: a substituição de Toninho, expulso no jogo passado.

Agora a equipe terá cinco dias para se preparar para o jogo contra o Paraná Clube. Tempo para preparar o time não tem faltado nos últimos jogos. As coisas têm que voltar aos eixos já a partir da próxima sexta-feira.

Quem ficou devendo

Toda vez que vejo Perone em campo espero que seja o último jogo dele pelo Figueirense. Como a esperança não morre, espero que este tenha sido o último jogo dele pelo Figueirense.

Wilson fez bobagem, mas sua qualidade é indiscutível. É o paradoxo do goleiro. Se não fosse ele, o Atlético poderia ter feito mais dois ou três gols. Como comeu um frango, é um dos responsáveis diretos pela derrota.

Roger é bom jogador, mas tem que baixar a bola. Em certos momentos é de uma displicência absurda e que acaba castigando o time todo. Como capitão tem que dar o exemplo, jogar sério e não enfeitar onde não deve.

Lucas caiu de produção nos últimos jogos. Alê e Totó já foram mencionados. Pedrinho jogou um pouquinho melhor do que na partida anterior, que já havia sido um pouco melhor que as anteriores. Precisa de sequência.

O toque que faltava

Mesmo ficando 13 meses sem jogar uma partida, Fernandes entrou mandando prender e mandando soltar no meio-campo do Figueira. Na ponta dos cascos, pode ser decisivo para a equipe.

Procurou prender a bola, variar o ritmo, fazer lançamentos, se aproximar dos atacantes. Nem sempre conseguiu fazer o que queria, mas indiscutivelmente sabe o que faz.

Bola no chão

Surrupio uma historinha contada pelo Jorge Santana no blog PHD sobre o técnico Carlos Bilardo, campeão mundial com a Argentina em 1986:

“Aborrecido porque seu time só saia na base do chutão, Carlos Bilardo cobrou do goleiro Nery Pumpido:

- Pra que tanto chutão?

- Porque os caras da defesa viram as costas, acenam com as mãos e gritam:

- Chuta, chuta logo pra frente!

- Então, da próxima vez acerte a nuca de um boludo desses, que ele aprende a lição…

- Mas aí um atacante vai pegar a bola e nos meter um gol…

- Foda-se, é bom pros nossos beques aprenderem!”

Eu incluiria mais gente na bronca – volantes, alas e meias –, mas que parece o Figueira, parece.

88 anos, Fernandes e vitória

Nesta sexta-feira, o Figueira completou 88 anos de vida. Parabéns para todos nós, alvinegros, que vivemos, vibramos e sofremos juntos com este clube. Uma história que não pode ser dissociada de sua torcida.

O primeiro presente veio com o fato de Fernandes ter viajado com o grupo para Goiânia. A entrevista por Tainha e Rafael Ziggy (veja aqui) deixa evidente a profunda relação de amor e dedicação que o craque tem com o clube e a torcida.

Para fechar o dia, uma vitória contra o Atlético-GO no Serra Dourada alegraria bem mais a festa. É uma boa hora para voltar a vencer.

As cinco primeiras rodadas desde 2006

Um exercício de comparação entre as três últimas edições da série B, disputadas em pontos corridos, e a atual:

2006

Promovidos: Atlético-MG (71 pontos), Sport Recife (64), Náutico (64) e América-RN (61)

Classificação dos promovidos depois de cinco rodadas: Atlético-MG (2º, 11 pontos), Sport (1º, 13), Náutico (8º, 7) e América-RN (18º, 3)

Quatro primeiros depois de cinco rodadas: Sport (13 pontos), Atlético-MG (11), Ituano (11) e Paysandu (9)

Classificação final dos quatro acima: Sport (2º, 64 pontos), Atlético-MG (1º, 71), Ituano (10º, 50) e Paysandu (17º, 44, rebaixado)

2007

Promovidos: Coritiba (69 pontos), Ipatinga (67), Portuguesa (63) e Vitória (59)

Classificação dos promovidos depois de cinco rodadas: Coritiba (5º, 9 pontos), Ipatinga (12º, 7), Portuguesa (18º, 3) e Vitória (4º, 9)

Quatro primeiros depois de cinco rodadas: Fortaleza (12 pontos), Marília (10 pontos – perdeu seis pontos por escalar jogador irregular na vitória sobre o Avaí na 3ª rodada), São Caetano (10 pontos), Criciúma (10 pontos) e Vitória (9 pontos)

Classificação final dos quatro acima: Fortaleza (5º, 56 pontos), Marília (6º, 53), Criciúma (7º, 53) e São Caetano (10º, 53)

2008

Promovidos: Corinthians (85 pontos), Santo André (68), Avaí (67) e Barueri (63)

Classificação dos promovidos depois de cinco rodadas: Corinthians (1º, 15 pontos), Santo André (15º, 5), Avaí (12º, 7) e Barueri (8º, 8)

Quatro primeiros depois de cinco rodadas: Corinthians (15 pontos), Juventude (10), Vila Nova (9) e Fortaleza (8)

Classificação final dos quatro acima: Corinthians (1º, 85 pontos), Juventude (8º, 56), Vila Nova (6º, 58) e Fortaleza (16º, 45)

Tudo isso para concluir o que é óbvio: um bom começo não é motivo para deitar em berço esplêndido; um mau começo não é motivo para arrancar os cabelos.

Há momentos, porém, que o óbvio precisa ser dito.

Virulência gratuita e excessiva

A entrevista coletiva concedida pelo meia Pedrinho e publicada pelo site Infoesporte (clique aqui) merece ser vista com atenção – também merece ser lido o comentário do Tainha (aqui) a respeito.

Pedrinho não questiona as críticas, mas o tom, a virulência de torcedores e comentaristas ao reclamar de seu desempenho. O jogador admite que está devendo, mas pondera que ainda não teve uma sequência de jogos para mostrar todo o seu futebol.

É, de fato, um aspecto interessante. Muitos comentaristas/radialistas/jornalistas querem mostrar que não têm rabo preso, que “botam o dedo na ferida” e desancam dirigentes, jogadores e técnicos sem medir as palavras. Não percebem – ou convenientemente se esquecem – que esse excesso de virulência influencia o comportamento do torcedor e pode descambar para a violência.

Muitos torcedores, por sua vez, parecem considerar cada derrota, cada mau desempenho, cada má campanha como uma afronta pessoal, uma traição inominável e imperdoável que deve ser castigada com a cadeira elétrica ou o linchamento de cada dirigente, técnico e jogador responsável pelo crime capital de decepcioná-lo.

Com tanto ódio e impaciência, o clima nos estádios fica praticamente irrespirável. E isso não faz bem para ninguém.

Hora de acalmar

Por motivos perfeitamente compreensíveis, boa parte da torcida alvinegra oscila entre a ansiedade, a preocupação e o desalento depois de três jogos sem vencer, com duas derrotas em casa.

Depois de rebaixamento e das dificuldades de se recuperar e voltar a ver um time confiável em campo, os últimos maus resultados servem de mote para se exigir mais reforços, mais dispensas e até mesmo questionar a permanência do técnico Roberto Fernandes.

Pois eu vou na direção contrária. É hora de acalmar. È hora de avaliar melhor o grupo de jogadores do Figueira, de dar tempo para que estes atletas mostrem de fato o que podem fazer sem anunciar uma ou mais contratações por semana. É hora de ter convicção no trabalho de Roberto Fernandes e deixá-lo encontrar a melhor formação e o melhor sistema de jogo.

Vou na direção oposta porque vejo que o Figueira é uma equipe em permanente construção desde o ano passado. Treinadores contestados, jogadores criticados, resultados ruins e mudanças a atacado. Não funcionou, como se viu, e agora é preciso assentar um pouco a poeira.

Sim, o elenco tem carências, mas não deve haver um time na série B que não as tenha. A questão é que muitos jogadores acabaram de chegar e individualmente têm qualidade. Outros já chegaram no começo do ano, mas, por conta de contusões, ainda não tiveram uma boa sequência de jogos.

Então é o momento de insistir numa formação, dar ritmo de jogo para Pedrinho, Fernandes, Egídio, Régis, Paulinho e outros. E mais para frente avaliar quais são as reais carências e fazer os devidos reparos. Mais para frente será possível botar para jogar alguém que voltou do exterior. Daqui a pouco terá gente de qualidade insatisfeita porque não está tendo chance em times da série A. Não há razão para desespero com cinco rodadas do campeonato.

Roberto Fernandes, por outro lado, não pode ser descartado porque não foi feliz em duas partidas, contra a Lusa e o Ceará. Contra o Guarani, começou o jogo com uma boa formação. O técnico já demonstrou que é competente e pode ser importante para o Figueira voltar à série A.

Pouca pressão

Tem coisas que eu não vejo faz tempo no Scarpelli. Não, não estou me referindo a uma vitória do Figueira, como os mais engraçadinhos poderiam supor. Falo da maneira do time jogar. Queria entender porque o Figueira não pressiona a saída de bola adversária durante a partida.

Não se trata somente do técnico Roberto Fernandes. Nenhum dos últimos treinadores que passaram pelo Furacão Alvinegro fizeram o time pressionar a saída de bola do adversário. Estes, por sua vez, botam o time para frente e fazem o Figueira sair no chutão, quando retomam a bola quase sempre e passam a controlar a partida a partir daí.

Fazer a marcação por pressão não é simplesmente botar os dois atacantes para correr feito malucos atrás dos zagueiros e volantes adversários. Só isso é muito pouco. É só fazer a conta: se o goleiro sai jogando com os dois zagueiros, já são três a dois. Junta os volantes e sobra gente.

A marcação por pressão é um movimento coordenado no qual se adianta todo o time. Também não adianta adiantar os atacantes e os meias e o resto do time ficar do meio-campo para trás, deixando uma avenida para o adversário transitar à vontade. Tem que botar o time todo para frente a garantir a compactação entre as linhas.

Não sei se é receio de dar espaços para a bola longa do adversário, falta de confiança na capacidade da equipe para fazer a tarefa de forma organizada ou simples preferência dos treinadores. No jogo de sexta-feira, contra o Guarani, por exemplo, logo no começo da partida, todos os jogadores do Figueira estavam da altura do meio-campo para trás, aguardando o Bugre vir.

Partindo do princípio que o empate era bom para o time de Campinas, que jogava fora de casa, é difícil de entender o comportamento do Figueira.

A última vez que eu me lembro do Furacão Alvinegro pressionar a saída de bola e não deixar o adversário respirar foi na vitória contra o Botafogo, pela semifinal da Copa do Brasil de 2007. Funcionou. O Figueira fez 2 a 0 no primeiro tempo e depois administrou a partida.

Você lembra-se de algum outro jogo depois disso?

Pouca aderência

Outra coisa que eu não vejo é mais prosaica, mas não deixa de ser importante. Os jogadores do Figueira treinam e conhecem o gramado do Scarpelli, mas vivem escorregando durantes as partidas, principalmente as noturnas. Parecem escolher as chuteiras erradas, enquanto os adversários, bem menos habituados às condições do terreno, derrapam bem menos.