Não sou um exemplo de torcedor. Não fico pulando e cantando o jogo todo. Sou tímido demais para puxar o coro da torcida. No máximo, vou junto no embalo. Em determinados momentos dou uns berros para apoiar o time. Ou para xingar o juiz ou o bandeirinha que corre bem na minha frente.
Não estou aqui, portanto, para ensinar ninguém a torcer. Uma coisa, no entanto, que me acostumei a fazer desde muito tempo foi ir a jogo do Figueirense. Independente da fase, do campeonato, do time que temos ou do adversário. Eu simplesmente gosto de ir ao Scarpelli.
E aí, aqueles 90 minutos são sagrados para mim. Não consigo vaiar jogador do Figueirense. Não consigo apupar o time. Não consigo gritar olé em protesto se estamos perdendo e/ou levando um baile do adversário. Simplesmente não consigo transformar minha frustração/desapontamento/decepção em ódio contra o clube para qual aprendi a torcer e me acostumei a amar, mesmo que esta raiva seja momentânea.
E torcer, ir ao estádio, é uma conjunção de costume, paixão, vício, masoquismo, solidariedade, fé, esperança, diversão, prazer. Antes e depois tu podes cornetear, xingar jogador, diretor, imprensa. Durante os 90 minutos em que a bola rola, tu apóias o time a tua maneira, torce do teu jeito para que ele vença o jogo. É assim que eu penso.

É por isso que não posso concordar com a proposta de público zero no jogo contra o ABC. Até porque, além de tudo que escrevi acima, o Figueirense está em sexto lugar, a quatro pontos do G4, faltando 18 jogos para terminar o campeonato. O protesto, além da forma equivocada, tem um timing completamente errado.
A partir do momento que comecei a frequentar o Scarpelli com mais constância, durante os já longínquos anos 80, acompanhei péssimas, boas e ótimas fases.
No dia 23 de novembro de 1983, presenciei o Figueira virar sensacionalmente uma decisão contra o Joinville com gols de Albeneir e Balduíno. O jogo valia pela Taça José Elias Giuliari, terceira fase do campeonato estadual, que naquela época durava de março a dezembro.
A virada levou o jogo para a prorrogação e depois para os pênaltis. Vi Mica, Balduíno e mais um jogador do qual não recordo o nome desperdiçarem três cobranças acertando a mesma trave à esquerda do goleiro no gol que fica à esquerda da arquibancada coberta e o Figueira perder por 3 a 0.
Mesmo sabendo que Dalmo Bozzano não recebia hora extra e, portanto, não dava acréscimo. Mesmo sabendo que a equipe do Joinville era melhor. Mesmo sabendo que o Figueira era um time desgraçadamente sem sorte, menos de um mês depois estava lá para ver o Furacão Alvinegro perder a decisão do campeonato contra o mesmo Joinville – aliás, caiu uma tromba d’água colossal meia hora antes de o jogo começar e o campo virou uma piscina. O placar não saiu do zero a zero que deu o título ao JEC.
Nos anos seguintes continuei indo ver o Figueira perder uma decisão – fosse de turno, fase ou campeonato – atrás da outra para o JEC, movido por puro masoquismo, por uma esperança inquebrantável ou por um pouco de cada.
E assim segui, como milhares de outros torcedores. Acompanhei jogos da segundona catarinense contra Flamengo de Capoeiras, Guaycurus de Concórdia e Ipiranga de Tangará. Aguardei ansiosamente por um título estadual durante 20 anos. Não deixei de ir ao estádio naquele tempo. Não deixarei de ir agora.
A torcida tem direito de protestar e externar sua insatisfação? Sem dúvida que tem. Acredito, inclusive, que as reclamações devem transcender os xingamentos pueris e costumeiros e partir para algo mais construtivo, coletivo e consciente.
Por que não começar a discutir formas de interferir politicamente nos destinos do clube? Por que não debater e reivindicar o direito a voto dos sócios torcedores? Por que não exigir mais transparência e interação entre diretoria e associados?
Podemos e devemos discutir tudo isso. Temos a semana inteira para ter essa conversa. Podemos bater um papo antes do jogo. Ou depois do jogo.
Agora os 90 minutos de jogo são sagrados. É quebra tudo, Figueira, Figueira, ê, ô, minha razão de viver, eu amo você.
Na sexta-feira, na hora da partida, vou fazer o que sempre faço: ir ao estádio e torcer pelo Figueira. E você?
Fotos: Carlos Amorim/Figueirense