O mesmo velho filme

A Figueirense Participações saiu da letargia em que se meteu desde o final da série B, há quase um mês, e anunciou uma enxurrada de nomes ontem pela manhã. Dos profissionais anunciados, gostei de dois: Márcio Goiano e Marcelo Nicácio.

O primeiro já devia ter encerrado a carreira de jogador no Figueirense e ter assumido um cargo no clube em seguida, mas optou por prolongá-la e parar de jogar depois de manchar o currículo com uma curta passagem pelo time do Sul da Ilha. Por seu perfil e sua história no Figueira, no entanto, Goiano pode ser útil. Já Marcelo Nicácio é um bom reforço para a série B, na qual fez tantos gols quanto Rafael Coelho neste ano.

Renê Weber como técnico não motiva o torcedor. Não há nada em seu currículo que o qualifique para ser treinador do Figueirense. Vai ter que mostrar na prática que tem capacidade para fazer um bom trabalho.

O resto dos anúncios deixou claro que as coisas estão mal paradas. O clube não anunciou propriamente os reforços, mas um esboço de elenco para 2010 (clique aqui e aqui com mais detalhes), do qual fazem parte vários jogadores completamente desconhecidos, além de outros que perambulam de clube para clube nos últimos tempos sem conseguir exibir um bom futebol. Além disso, não foi explicado porque jogadores como Massari, Edson e Roberto Firmino não fazem parte da relação.

É a velha tática de jogar a tarrafa e ver o que pega, ou seja, traz uma penca de jogadores e vê se algum serve. Como disse o Ziggy, nada animador e parece mais uma repetição do triste filme visto em 2009.

Por fim, Paulo Prisco informou que o que ele escreveu não vale mais e a Figueirense Participações continua até o fim do contrato, em 2024 (saiba mais aqui). Parece que a FP está tentando dar o migué a la Fernando Henrique Cardoso – “esqueçam o que eu escrevi”.

A gente não esquece, nem o Conselho Deliberativo vai esquecer. A respeito da declaração de PPP, a Comissão do CD divulgou a nota abaixo:

A comissão que representa oficialmente o Conselho Deliberativo do Figueirense Futebol Clube reúne-se nesta quarta-feira (23/12), às 19 horas, na sede da agência de publicidade Propague, na SC 401, para discutir alternativas, inclusive jurídicas, diante da declaração pública, feita hoje pelo dirigente da Figueirense Participações, Paulo Prisco Paraiso. O investidor afirmou que a atual gestora pretende ficar no comando do clube até 2024. Conselheiros do Figueirense receberam a afirmação com surpresa por ela revogar completamente os termos de carta que Paulo Prisco Paraiso enviou ao Conselho Deliberativo em 22 de setembro passado.

O fato é que o clube vai retomar o controle do futebol. A FP pode se tornar parceira, mas não vai dar mais as cartas. A empresa precisa aceitar esta nova realidade, que, apesar de prometer algumas turbulências iniciais, pode ser benéfica para o Figueirense em médio e longo prazo.

Conselho do Figueirense quer gestão direta com dispensa de terceirização

Confira a seguir o comunicado enviado à imprensa pela comissão que representa o Conselho Deliberativo nas negociações com a Figueirense Participações:

Reunida hoje (21/12), a comissão que representa o Conselho Deliberativo do Figueirense com o objetivo de analisar a situação criada pelo possível final do contrato da Figueirense Participações S/A com o clube, decidiu pela redação de um documento, entregue esta tarde ao diretor João Gonçalves, manifestando-se pela necessidade do Figueirense reestruturar sua conexão com o mercado empresarial de forma que passe a ser uma gestão direta, e não indireta e terceirizada de seus ativos, ao mesmo tempo que se abra a parcerias com investidores presentes nesse mercado, como a própria Figueirense Participações e seus dirigentes.

“Está claro que não se está mandando ninguém embora; muito pelo contrário, entendemos que Paulo Prisco Paraíso, como a própria Figueirense Participações, são potenciais parceiros investidores para o clube, inclusive pelo histórico da relação entre ambos” afirmou o presidente do Conselho Deliberativo, Nestor Lodetti. A comissão, que representa legitimamente o Conselho Deliberativo para analisar a proposta que a Figueirense Participações fez,   e o encaminhamento de uma solução alternativa, diz no documento que o clube não tem mais interesse na terceirização de sua gestão, nem mesmo num modelo de contrato como o atual, que se encerra dia 22 de março, por iniciativa da empresa, mas sim na gestão por si mesmo de seus ativos e no diálogo com o mercado investidor, que inclui a FPSC e seus dirigentes, mas não somente.

O atual contrato da Figueirense Participações S/A foi assinado em 2004 e por ele o clube fez a opção de terceirizar sua gestão. Em 18 de novembro passado a FP S/Aapresentou ao clube proposta de novo contrato e modelo de gestão, com “quarteirização” do futebol, inclusive. Antes, dia 22 de setembro, denunciou o contrato atual, acenando com a possibilidade de seu rompimento, sem motivo, avisando com seis meses de antecedência caso não fosse aceito pelo Conselho Deliberativo. Submetida a discussão no ultimo dia 2 de dezembro, a proposta não foi aceita e por isso passou-se a considerar que o contrato de gestão deve ser encerrado dia 21 de março de 2010. Nesse ínterim, o Conselho Deliberativo incumbiu a comissão de negociar com a FP S/A um outro modelo de gestão, desde que não fosse indireto ou terceirizado. Essa negociação, feita na semana passada, não obteve êxito. Diante disso, o documento entregue hoje deixa claro que o clube, em termos jurídicos, volta a ter o controle de sua gestão, que deixa de ser indireta ou terceirizada, a partir de 21 de março de 2010.

Platitudes e generalidades abstratas

Chegamos a 21 de dezembro sem definições fundamentais para encaminhar a temporada 2010 e o futuro do clube.

A Figueirense Participações não confirma se vai ou não deixar o clube. Também não esclarece o que teria a oferecer em troca das exigências que fez para mudar o contrato atual que tem o clube para gerir o futebol.

A diretoria administrativa do Figueira, comandada por Norton Boppré, não abre a boca. Limita-se a divulgar notas no site do clube no clima do momento, ou seja, repletas de platitudes e generalidades abstratas.

Sua primeira declaração, de 4 de dezembro, dizia que o trabalho continuava. Iam definir a comissão técnica, o elenco, planejar a temporada. Até agora, de definido, a data de apresentação dos jogadores com contrato em vigor: 4 de janeiro.

17 dias depois da divulgação, nenhum jogador foi contratado, nenhum teve contrato renovado, não há comissão técnica. Nada. Absolutamente nada foi definido.

Mais do que nunca, diante do adiantado da hora, o Figueira não vai trazer jogador que tenha se destacado em seu clube de origem. Vai apostar, de novo, única e exclusivamente em quem sobrar de outras equipes, além de perder os que se destacam em seu próprio time (Rafael Coelho e, talvez, Fernandes e Roger Carvalho). Até eu, que sou lento, já percebi que a fórmula parou de funcionar.

A outra nota publicada no site seguiu na mesma linha. Divulgada no dia 18, diz que o Conselho Administrativo se reuniu, relatou, discutiu, conversou e avaliou. E mais não explica.

Para fechar, a completa falta de clareza, a comissão do Conselho Deliberativo ainda não disse explicitamente o que vai fazer. É muito palavrório, muito volteio, muita preocupação em não ferir suscetibilidades.

É muito difícil o torcedor ficar lendo tudo nas entrelinhas. Vamos lá, pessoal, o Figueira é time do povão. Vamos deixar o discurso empolado para lá e dizer as coisas com todas as letras.

Pelo que entendi nas entrelinhas dos debates da semana, deixo minha colaboração para clarear o meio campo e explicar o que vai acontecer:

A Figueirense Participações tem que deixar a administração do futebol até 21 de março, conforme comunicou que iria fazer em 22 de setembro. A partir de 22 de março, o Figueirense Futebol Clube vai retomar o controle de seu departamento de futebol. Até lá, a Figueirense Participações tem quem cumprir suas obrigações contratuais e formar a comissão técnica e o elenco para o início da temporada 2010.

É isso? Está claro? Então mãos à obra, que há muito que fazer.

Sem chororô e sem cheque em branco

Com raras exceções, o que está saindo na mídia de Florianopolis a respeito do impasse entre Figueirense e Figueirense Participações está lançando mais dúvidas do que esclarecendo o andamento das discussões.

É fundamental saber que essas conversações podem se estender por um longo tempo. E que isso é algo absolutamente distinto da montagem do time para 2010.

Também é importante lembrar que o Conselho Deliberativo não tinha porque apresentar contraproposta na reunião ocorrida nesta terça-feira (leia o relato do Tainha aqui) . Foi a Figueirense Participações que deu um ultimato no Conselho quando entregou um comunicado em setembro passado em que afirmava que iria apresentar uma minuta com mudanças no contrato entre as partes e que, caso estas mudanças não fossem aceitas, faria uso da cláusula 32 do acordo atual.

Este item dá o direito da FP encerrar o contrato sem qualquer tipo de ônus, desde que informe a decisão com seis meses de antecedência.

O torcedor precisa saber ainda que o Conselho Deliberativo não tem como encerrar unilateralmente o contrato com a Figueirense Participações, a não ser que pague uma multa de R$ 1 milhão de reais.

O único jeito da FP sair agora é através de um acordo entre as partes. Ou então, confirmar que sairá em março e já permitir que o CD e/ou a administração do clube indique pessoas para trabalhar no futebol.

A comissão formada pelo CD para tratar da questão já anunciou que pretende, inclusive, rever os termos do atual contrato, estabelecendo mais metas mais claras e objetivas para o futebol (hoje limitadas à expressão “time competitivo” no contrato – brigar pelo acesso à série A até a penúltima rodada do campeonato da segunda divisão é ser competitivo, não?).

Pelo que pude ler e ouvir das afirmações de Paulo Prisco Paraíso, fiquei com a impressão que ele não se preocupou em esclarecer o que as mudanças no contrato vão trazer de positivo ao clube. É tudo muito vago.

PPP está dedicando mais tempo na mídia para reclamar do tratamento que vem recebendo, da ingratidão do torcedor e do CD, do que tentar convencer que o que propõe traz benefícios ao Figueirense Futebol Clube.

Não será com reclamações, nem protelando a contratação da comissão técnica e a formação do elenco para 2010 que PPP e a FP vão conseguir convencer o torcedor de que precisam de mais liberdade e autonomia na gestão de futebol para tornar o Figueirense mais competitivo.

Por um bom tempo, PPP fez por merecer a confiança quase cega de grande parte dos torcedores do Figueirense. Esse tempo acabou e não vai ser com chororôs, choramingos, reclamações, acusações e discursos que esta confiança será conquistada.

Será reconquistada com trabalho, ações concretas, time forte e vitorioso, transparência nas relações com o clube, democracia e participação. É preciso tratar desta questão com clareza e objetividade.

O Figueira precisa sim ingressar numa nova etapa, construir um novo modelo, sacudir a poeira. Isso, no entanto, não passa por assinar um cheque em branco a quem quer que seja.

Cria corvos

Não sei qual será o futuro do Figueirense sem a Figueirense Participações. Sei que as mudanças propostas pela empresa são inaceitáveis nos termos em que foram apresentadas. É por isso que externei minha posição em post escrito em 30 de novembro (clique aqui).

Não sei, no entanto, se há acordo possível. A Figueirense Participações cometeu um grave erro de cálculo ao encaminhar a minuta de novo contrato sem ter preocupação em debatê-la e explicá-la ao Conselho Deliberativo e aos torcedores. Nesta terça-feira teremos a primeira reunião entre FP e CD e pode ser que já se sinalize qual caminho será seguido.

A FP parece ter se isolado tanto do resto do clube e da torcida que não conseguiu medir corretamente o grau de insatisfação que tomou conta de todos os setores. Assim, a proposta entregue ao CD caiu como uma bomba, um desrespeito, uma provocação.

O sentimento de boa parte do Conselho Deliberativo e da torcida não pode ser resumido ao mau desempenho dos últimos dois anos. A insatisfação vem de longe porque a FP não conseguiu se comunicar corretamente com a torcida, estabelecer uma ligação afetiva com o torcedor.

Surpreende então que agora o discurso acabe caindo justamente na vala comum do sentimentalismo, com reclamações sobre a ingratidão e a falta de reconhecimento do torcedor.

Há um problema básico de percepção nessa história toda. O pessoal da Figueirense Participações entende que deu demais para o clube. Quem está de fora entende que o clube deu demais à empresa.

De quem é a culpa por este desencontro? Da Figueirense Participações, que não soube desfazer o sentimento generalizado de que estão ganhando muito com o clube. Não poderiam ter se encastelado, deveriam ser mais transparentes, mais abertos a esclarecer o que acontece no Figueira.

Não poderiam cair no mesmo passionalismo do torcedor e se considerarem injustiçados, pura e simplesmente. Sim, o torcedor é passional, é ingrato, é hipócrita. O torcedor não se importa em vender a alma ao diabo. Ele fica furioso é se o capeta não cumprir sua parte no trato.

Já fui criticado por supostamente defender demais a Figueirense Participações. Na verdade, de um lado, procurei sempre reconhecer o que fizeram de bom. De outro, tentei sair um pouco do oito ou 80 que grassa pelo futebol.

Lá pelas bandas do Sul da Ilha se vê um dos maiores episódios de amnésia coletiva da história do futebol. Os mesmos que queriam a cabeça de Zunino numa bandeja agora beijam seus pés e gargalham de satisfação com o amor que o homem supostamente tem pelo clube.

Aqui, é o contrário. Quem idolatrava PPP, agora quer seu pescoço. E não dá para ter ilusões. Se a FP sair e o clube passar por dificuldades, muitos dos que hoje protestam furibundos, vão protestar furibundos contra os que entrarem em seu lugar e vão se tornar viúvas carpideiras de PPP. É nessa lógica binária que geralmente o torcedor funciona.

Não acho justo comparar PPP com Eurico Miranda, como li por aí. Não acho que a FP é composta de meliantes, uma corja de canalhas interessada apenas em saquear o clube. Não. Trata-se de gente que fez um grande trabalho, reergueu o Figueira e o lançou a um patamar nunca antes alcançado.

Só que os modelos se desgastam, se esgotam. É difícil se manter no topo, na vanguarda. È preciso ter autocrítica, capacidade de análise, de reformular, reinventar, ouvir, aproveitar o que é útil e bem fundamentado na crítica alheia. É nisso que a FP tem falhado nos últimos tempos.

Há um ditado espanhol que diz: cria corvos que eles te comerão os olhos.

Em boa medida, a FP é vítima de seu próprio sucesso. Ao tirar o Figueirense do fundo do poço e comandar uma era de vitórias e conquistas, a empresa acostumou o torcedor a um novo padrão. Ao não conseguir manter este padrão, o preço é cobrado. Nesse momento, a panela de pressão é destampada e explode a insatisfação acumulada ao longo de tantos anos no comando. Até porque o tempo no poder também causa desgaste, agravado por aquela falha de comunicação comentada mais acima.

Porém, ninguém quer ou aceita o retrocesso. É daqui, ou melhor, do que tínhamos até 2007 para cima, para mais. Todos acreditam que é possível, que não chegamos ao teto.

Assim, o que se espera é que mesmo que haja uma ruptura, ela não represente uma negação do modelo de gestão adotado até agora. O que se quer é um aperfeiçoamento, uma correção, um avanço no que foi feito até agora. Se isso puder ser feito contando com a experiência e a presença da FP, ótimo. Se não, será preciso trilhar um novo caminho.

Hora de democratizar o Figueira

Atualmente, o Figueirense tem menos de 300 sócios patrimoniais. São eles que decidem os destinos do clube, elegendo o Conselho Deliberativo, que, além de fiscalizar e apreciar proposições vindas da diretoria administrativa, elege os responsáveis por dirigir o clube.

Se você, no entanto, quiser se juntar a eles, não poderá, porque há um bom tempo o clube não abre a venda de títulos patrimoniais. Assim , o Figueira vive uma situação peculiar. Menos de 300 pessoas têm a incumbência de formar uma chapa de 100 titulares e 50 suplentes para compor o Conselho Deliberativo. Quer dizer, mais da metade dos votantes também será eleita.

Atualmente o Figueira tem, no mínimo, 10 mil sócios torcedores. São eles que em boa parte sustentam financeiramente o clube. Seu único direito, porém, é a uma cadeira no estádio. Isso se pagar a mensalidade em dia. É um mero locatário de cadeira.

Embora muitos torcedores alvinegros não acreditem, o Figueirense inovou ao revitalizar a modalidade de sócio torcedor. Depois de fracassar em vários clubes anteriormente, a experiência foi bem sucedida no Figueira e serviu de modelo para vários outras agremiações que investiram na proposta.

O próprio Internacional, hoje o clube com mais sócios no Brasil, mandou gente do seu departamento de marketing para estudar como funcionava o negócio no Figueirense. Só que o Inter aperfeiçoou o processo, dando direito de voto ao sócio torcedor, enquanto o Figueira parou na metade do caminho.

Uma rápida olhada no Estatuto do Internacional revela que o clube incluiu o sócio torcedor como uma das modalidades de sócio patrimonial (letra “a” do inciso IV do artigo 5º: “o adquirente do direito de uso de cadeira locada, enquanto vigente o respectivo contrato”).

Assim, ele pode votar e ser votado nas eleições do clube. Além de estar em dia com suas contribuições, são apenas duas exigências para que ele participe do processo eleitoral: ter mais de 16 anos e fazer parte do quadro social até o dia 31 de dezembro do ano anterior à realização da Assembléia Geral.

O Grêmio tem um modelo parecido. Abre a possibilidade do sócio cessionário de cadeira se transformar em sócio efetivo ao final do contrato – não sei a duração deste contrato, acredito ques seja de um ano – e a partir daí, ele pode participar do processo eleitoral.

O Figueirense precisa também democratizar-se, revitalizar-se, oxigenar-se. O meio mais democrático, transparente e aberto é dar o direito de votar e ser votado aos milhares de sócios torcedores que o clube tem.

A era do clube de cota acabou. Os clubes sociais, dos tempos das piscinas, quadras, ginásios e bailes para os sócios que pagavam a jóia e compravam o título patrimonial, estão morrendo aos poucos. São praticamente inviáveis financeiramente, estão se desfazendo de patrimônio para estender sua sobrevivência por mais um tempo e cada vez contam com menos sócios.

O Figueirense nunca foi um clube social na acepção da palavra. Mais valia ser sócio do LIC, do Doze, do Lira ou do Seis, que ofereciam espaços de lazer para seus associados. O Furacão Alvinegro sempre foi um clube de futebol e é por isso que sobrevive até hoje, enquanto outros clubes sociais caminham para o desaparecimento.

Nada mais justo, portanto, que garanta a participação de seus torcedores na vida política do clube. Não me incomoda que, se um dia o clube acabar, o estádio Orlando Scarpelli seja dividido em 200  pedaços e entregue aos sócios patrimoniais, legalmente os legítimos proprietários do clube. Até porque o Figueira deixar de existir é algo que ninguém quer, seja sócio patrimonial, sócio torcedor ou simplesmente torcedor.

Em 2010, tem eleição para renovar o Conselho Deliberativo. Vivemos o momento ideal para abrir o processo de discussão sobre a democratização do clube e garantir a participação de todas as modalidades de sócios. É desse modo que o Figueirense se tornará mais forte, mais vivo e mais vencedor.

Notas alvinegras

  • Sou sócio do Figueirense há 10 anos. Por valores atuais, já botei uns 12 mil reais no clube. Merecia ou não ter direito de participar da vida do clube mais intensamente? Há milhares de outros torcedores na mesma situação.
  • O clube já poderia ser mais transparente de forma mais simples, prosaica e sem custo. É só publicar os balanços financeiros, o estatuto e a relação de conselheiros no site.
  • Neste domingo, os juniores voltam a campo pelo Brasileiro Sub-20, contra o Santo André, que ainda não pontuou na competição. Uma vitória deixa a classificação alvinegra para a segunda fase muito bem encaminhada.

Vamos com esses?

Wilson; Lucas, João Felipe, Edson e Massari; Ricardo, Robertinho, Roberto Firmino e Maicon; Alex Junio e Marquinhos.

Ao conferir o BID acumulativo das competições promovidas pela CBF na última sexta-feira, dia 11, se constata que o Figueirense tem 150 jogadores registrados, entre amadores e profissionais.

Entre os profissionais, incluem-se os jogadores do elenco profissional cujos contratos terminam até 31 de dezembro e os atletas das categorias de base que já têm idade para deixarem de ser amadores.

Assim, Jeovanio, Egídio, Paulo Sérgio, Vinícius Pacheco e Bóvio não fazem mais parte do elenco alvinegro, já que seus contratos terminaram em 30 de novembro. Além deles, vários atletas têm seu vínculo encerrado no final deste mês, como Fernandes, Schwenck e Carlinhos, além daqueles que vieram por empréstimo (Paulinho, Roger Carvalho, Diego Paulista, Anderson Pico, Clodoaldo, Toninho, Kássio, Alê e Marcelo).

Os 11 escalados no primeiro parágrafo deste post são aqueles que terão contrato em vigor quando o Figueira se apresentar para iniciar a pré-temporada em 4 de janeiro do ano que vem. Selecionei aqueles que já jogaram pelo time principal e/ou vi jogar. O Maicon escalado é aquele que ninguém quer que fique no Figueira, já que Talheti vai demorar pelo menos mais uns três meses para voltar a jogar.

Como se vê é um time com alguns bons valores, mas jovem demais para aguentar o tranco de jogar pelo Figueira num momento tão crítico. Estes atletas, mesclados com jogadores mais experientes, podem render bem, sozinhos serão jogados na fogueira.

Se é a Figueirense Participações não definir o que quer da vida, no entanto, são com esses jogadores que o Figueira poderá contar em 2010.

Talvez na segunda-feira

A informação mais recente sobre a resolução do impasse em que o Figueirense mergulhou foi dada pelo repórter Helton Luiz, através do Tweeter. Paulo Prisco Paraíso chega amanhã a Florianópolis e na segunda-feira se reúne com a comissão formada pelo Conselho Deliberativo para discutir as mudanças no contrato propostas pela Figueirense Participações.

Enquanto isso, o tempo passa e atrapalha o trabalho de reorganização do clube e do elenco para 2010. É tempo perdido.

Para quem não lembra ou chegou agora, é só rolar a barrinha do navegador para baixo e ver tudo que este blog escreveu sobre o tema.

Já dei na canela da direção do clube e comprei briga com a pijamada ao mesmo tempo (A avaianização do Figueira). Avaliei quem deve ficar e quem deve ficar. Comentei que a espinha dorsal do time para 2010 passa por Fernandes, Wilson, Jeovanio e Schwenck. Opinei sobre a decisão do Conselho Deliberativo de recusar os termos propostas pela Figueirense Participações e abrir negociação. Sugeri que se buscasse um “comum acordo” e se tocasse o clube em conjunto (FP e CD) enquanto não se define o futuro.

Esgotei, portanto, minhas palavras a respeito do assunto.

Quem quiser jogar uma luz nova sobre esse engronha, a caixa de comentários está à disposição.

50 pagantes e muita conversa fiada

De um lado, a torcida de um time que vive seu pior momento nos últimos 10 anos. Depois de amargar o rebaixamento para a série B em 2008, a torcida passa um ano em que a equipe nunca engrena, nunca passa confiança e, mesmo brigando pelo acesso durante todo o campeonato, nunca empolgou a torcida. Essa torcida é tachada de chata, fria, enjoada, ranzinza, “fim de feira”, de “geladeira”.

Do outro lado, a torcida de um time que vive a melhor fase de sua história, saindo, inclusive, da completa irrelevância no cenário nacional para uma grande campanha na primeira divisão, campeonato que não disputava há 30 anos. Essa torcida é qualificada de quente, empolgada, “joga com o time”, o estádio é a “bombonera catarinense”.

Aí tu pegas as estatísticas dos dois últimos campeonatos da série B e constata que no ano passado, a média de público do Avaí na campanha do acesso, cantada em prosa e verso, foi de 6.863 pagantes por jogo.

Depois tu checas o campeonato desse ano e percebe que a média de público do Figueirense durante uma campanha arrastada e sofrida, com seis derrotas em 19 jogos no Scarpelli, foi de 6.813 pagantes.

Sim, amigos, a diferença entre a apaixonada massa avaiana e a gelada torcida alvinegra foi de gigantescos 50 pagantes a mais por jogo. IMG_3825

Ao fim e ao cabo, os números mostram o óbvio. Mesmo com tanta babação da imprensa em cima da turma de lá e mesmo com tanto rigor em cima da torcida alvinegra – aliás, como se gosta de malhar a torcida do Figueira nesta cidade –, fica claro que com o turbo ligado, a torcida de pijama tem que forçar o motor até as últimas para botar um dedinho de vantagem sobre a Nação Alvinegra em marcha lenta.

Pois quando a torcida do Figueira está a toda, ai é muita covardia comparar.

Notas alvinegras

  • A inspiração para este post veio de uma conversa com o Maurício Locks, do Gigante Alvinegro, depois de um programa Mais Alvinegro e da leitura da réplica do Rafael Petry ao texto do Jorge Jr.
  • Andaram dizendo por aí que o Vasco pagou R$ 1,2 milhão por metade dos direitos do Léo Gago. O que não disseram é que sobra ao Avaí a fortuna de R$ 240 mil, 20% do negócio. O resto vai para o bolso do Luiz Alberto.
  • Não disseram por aí que o Avaí está procurando um treinador que se encaixe no “projeto”, ou seja, trabalhe com os jogadores que a parceria lhe dar. Silas saiu porque queria mais poder e autonomia e vem outro que se sujeite a trabalhar nas condições impostas pelo clube/parceiro. Quando coisa parecida acontecia no Figueira, chovia crítica.

Fotos: Carlos Amorim/Figueirense

Terra de ninguém – Capítulo II

Por volta das 13h30 de domingo sai de minha casa por causa de um compromisso e num boteco perto, um cidadão com a camisa do Flamengo botava um bandeirão rubronegro no capô do carro. Minha vontade foi berrar “Taissshhhh indo pru Maraca, mermão?”, mas achei melhor não inticar com a criatura.

Nasci em Itu (SP) no longínquo ano da graça de 1968, vim para Florianópolis em 1971, meu pai é paulista, minha mãe, florianopolitana. Meu pai adora futebol e era corinthiano. Notem o tempo do verbo: era. Chegou aqui, a família da minha mãe toda alvinegra do Figueira, se identificou com as cores, com a torcida, e adotou o clube como seu. Hoje quer que o Coringão se lixe nas ostras.

Comecei a gostar de futebol na Copa do Mundo de 1974, aos seis anos. Por influência familiar virei Figueira, paterna, corintiano, para conviver com os colegas de colégio e amigos da cidade, adotei o Flamengo, por causa do Zico, como meu time carioca.

Torcer para time do Rio fazia parte dos usos e costumes da cidade. Mais da metade do ano era gasto com o campeonato estadual. A outra quase metade com o Brasileiro. Torcer para os três não causava conflito nem era excludente. O campeonato nacional tinha 50, 70, 90 clubes, cheio de grupos e fases. O Figueira enfrentar um dos dois era uma raridade.

Faixa da torcida do Vitória no Barradão aponta para o disparate

Faixa da torcida do Vitória no Barradão aponta para o disparate

Na década de 80, a situação piorou para o Figueira. Para disputar o brasileiro precisava ganhar o estadual. O Figueira não ganhava o estadual, logo nada de brasileiro, logo nada de jogar contra Flamengo ou Corinthians. Registre-se, no entanto: não me lembro de ter deixado de ir ao Scarpelli para ficar em casa vendo um jogo de um daqueles dois times pela TV.

Só que lá pelos anos 90, já mais velho e mais ligado, um alarme começou a soar na minha cabeça. Primeiro, acho que foi em 1993, quando o Corinthians montou um time com Rivaldo e Zé Elias e lançou Mário Sérgio como técnico. Na última rodada antes da decisão do campeonato nacional, o Corinthians precisava vencer o Santos e torcer para o eliminado Flamengo batesse o Vitória-BA para fazer a decisão contra o Palmeiras.

Meus fanáticos amigos manezinhos rubronegros queriam mais que o Flamengo entregasse o jogo para ferrar o Corinthians. Comentei que as torcidas dos dois times eram aliadas. Eles riram da minha cara. Ora, qualquer torcedor rubronegro da gema sabe que a “magnética” se alia à “fiel” enquanto os vascaínos se juntam aos palmeirenses. É a geopolítica da guerra das arquibancadas. Aqui, não faziam a menor idéia disso. Eu devia tê-los levado a um derby entre Corinthians e Palmeiras e tê-los soltado no meio da Mancha Verde com uma camisa do Flamengo para aprenderem enquanto contavam os hematomas e ossos quebrados.

Logo depois, prestando atenção no noticiário, percebi que o Globo Esporte gastava dois ou três minutos – uma eternidade em termos de TV – para mostrar que o Obina da época tinha feito dois ou três gols num treino do Flamengo. Era uma overdose de cobertura.

Quando o Figueira chegou à série A qualquer resquício de simpatia por esses clubes foi eliminado do meu sistema. Foi só perceber o desprezo, o desconhecimento, a ignorância dos comentaristas e torcedores dos grandes centros com relação aos times daqui para deixar de lado qualquer simpatia por alguma outra agremiação.

Entendo os costumes culturais da cidade. Entendo que o litoral catarinense cresceu rápida e desordenamente nos últimos anos, abrigando muita gente vinda de outros estados. Não posso, no entanto, deixar de lamentar profundamente que uma pesquisa (Impar, feita pelo Ibope para a RIC-Record) comprove que o Figueira tenha a maior fatia entre os clubes de Santa Catarina e mesmo assim sua torcida seja três vezes menor que times de fora do estado, como Flamengo, Grêmio e Internacional.

Torcida do Sport protesta contra torcida visitante de araque

Torcida do Sport protesta contra torcida visitante de araque

Sou daqueles que acham que a paixão por um clube se realiza no estádio. Fica difícil entender como alguém torce para um time pelo qual precisa pegar um avião para ir ver jogar em casa. Fica mais difícil entender como alguém que nunca botou os pés na cidade-sede daquele clube possa torcer para ele, como acontece aqui.

Ainda mais sabendo que para o carioca médio para cima de Minas Gerais todo mundo é paraíba, que para o paulista médio, para cima de Minas é tudo baiano, e que, para ambos, do Paraná para baixo é tudo mundo gaúcho. Não há como se identificar mecanicamente com o pessoal do eixo Rio-SP.

Em março do ano passado, escrevi o post Terra de ninguém, a respeito da cobertura televisiva dos jogos dos times de Santa Catarina. A discriminação prossegue. Os clubes do estado devem lutar para que seus jogos por competições nacionais sejam transmitidos por TV aberta para todo o estado. Isso vale para o Figueira, para o time do Sul da Ilha, para as equipes do interior. Avaí e Chapecoense são os representantes de SC na Copa do Brasil de 2010. Que os jogos deles sejam transmitidos para todo o estado, portanto. Quem não quiser ver que desligue a TV ou procure na internet ou na tv a cabo outra partida para assistir.

Quem sem pensar vira um torcedor fervoroso de um dos times do eixo, simplesmente enfraquece ainda mais os clubes de sua cidade e de seu estado. Para os grandes clubes brasileiros e para os grandes meios de comunicação, seria muito bom se só existissem no máximo 20 clubes no país. Ganhariam na economia de escala, monopolizando o mercado. Enquanto isso, o resto morre à míngua. É ótimo para alguns, péssimo para o futebol brasileiro como um todo.

No Nordeste (veja as fotos), o pessoal está acordando. E aqui?