A Figueirense Participações Sociedade Anônima (FPSA) só fica no comando do Figueirense Futebol Clube depois de 21 de março se entrar com uma liminar na Justiça. Essa possibilidade é justamente a maior ameaça ao futuro do clube e, infelizmente, a notificação judicial entregue ao presidente em exercício do Figueira, Carlos Aragão, na quinta-feira, dia 4, sinaliza para este cenário.
A empresa parece ter esquecido ou deliberadamente ignorado que faz negócios com um clube social, que nada mais é que uma associação de pessoas que lhe dão sustentação e viabilizam sua existência. O Figueirense pode ser uma entidade de direito privado, mas tem relevância pública e deve explicações, satisfações e informações a seus sócios e seus torcedores.
Nesse sentido, não tem cabimento, por exemplo, a empresa reclamar de que o contrato é sigiloso. Aliás, estar no contrato que seus termos são sigilosos é demonstração inequívoca de quanto ele já é vantajoso à FPSA e desigual para o clube.
É tão desigual que a empresa, e só ela, pode fazer uso de uma cláusula que lhe garante o direito de encerrar o contrato sem multa ou ônus de qualquer espécie, bastando comunicar o fato ao clube com seis meses de antecedência, a tal denúncia do contrato,como a empresa fez em 22 de setembro e tentou consertar e desmentir depois.
O clube, por sua vez, além de ter que pagar uma multa de mais de um milhão de reais tem que provar que a empresa não cumpriu suas obrigações e, portanto, quebrou o contrato. Como algumas das obrigações da FPSA previstas no contrato são extremamente vagas – como, por exemplo, ter que montar um time “competitivo” –, seria praticamente impossível ao Figueirense FC rompê-lo.
A empresa fez uso desta cláusula de sair sem pagar. Pôs a faca no pescoço do clube e comunicou lá no longínquo 22 de setembro que sairia em 21 de março se as mudanças no contrato não fossem aprovadas. As propostas foram rejeitadas por unanimidade pelo Conselho Deliberativo e assim se consumou o início do fim da era FPSA.
Clube é uma associação
Enquanto clube, o Figueirense tem suas determinações estatutárias e suas instâncias de decisão. A maior delas é a Assembléia Geral, que se manifestou três vezes a pedido da FPSA. A primeira em setembro, quando PPP entregou a carta denunciando o contrato. A segunda em dezembro, quando rejeitou o novo contrato. A terceira quando, por ampla maioria, rejeitou o pedido de retratação.

Este é o maior patrimônio do Figueirense
Do ponto de vista estatutário, o clube cumpriu suas normas e não há como questionar as decisões tomadas. É mais ou menos como se seu sindicato aprovasse um acordo salarial e você fosse contra ou se o seu condomínio decidisse fazer uma obra de emergência e você também se opusesse, mas em ambos os casos fossem derrotado pela vontade da maioria.
Se todos os trâmites foram seguidos,não há muito o que fazer a não ser aceitar a derrota. Você pode até contestar judicialmente as decisões aprovadas por estes fóruns de deliberação, pode até conseguir uma liminar suspendendo os efeitos destas decisões, mas só vai causar prejuízos à coletividade. E numa associação, de qualquer natureza, é o bem da coletividade e o respeito à decisão do maioria que tem que ser o norte de todas as ações.
Durante a entrevista coletiva de sexta-feira, o presidente do Conselho Deliberativo, Nestor Lodetti, afirmou que o plano de trabalho para ser executado a partir de 22 de março está “80% encaminhado”. Os 20% restantes dependem justamente da posição definitiva da FPSA de que não vai contestar judicialmente as legítimas decisões do Conselho Deliberativo do Figueirense.
Da minha parte, acho importante o clube buscar várias fontes de receita e diversos parceiros para fortalecer seu projeto de voltar à série A e de crescer ainda mais nos próximos anos.
Entendo, porém, que, bem gerido, o Figueirense tem condições de fazer um bom time para a série B com seus próprios recursos. Desde 2004, o clube caminha com suas próprias pernas, gerando receitas para se manter (receita com sócios, patrocínios, cotas de tv, vendas de jogadores, etc.), sem nenhuma injeção de recursos da FPSA ou de quem quer que seja.
Num primeiro momento, ainda mais na série B, isso é mais que suficiente para fazer um time capaz de conquistar o acesso, basta ter gente com bom conhecimento de futebol para formar o elenco par a competição, o que vem faltando à FPSA nos últimos tempos.
Para crescer além disso, aí sim, vai precisar de parcerias e de criatividade para buscar mais recursos. E aí será um projeto em construção permanente, como foi o da FPSA, que, na frieza dos números, mesmo se tratando das mesmas pessoas, foi mais bem sucedida antes da formação da empresa, quando quem comandava o clube era o Conselho de Gestão, do que depois.
Pensando até no pior, com o futebol voltando a ser controlado pelo clube, vai ser até mais fácil mudar o rumo das coisas quando elas não estiveram indo bem. Bem mais fácil do que se o Figueirense continuasse amarrado a um contrato dacroniano.
Uma associação do povo e para o povo
O maior patrimônio do Figueirense, no entanto, é seu torcedor. O clube precisa voltar urgentemente a se identificar como o Time do Povo. Quem viu o Scarpelli no Clássico, com cerca de 10 mil alvinegros fazendo uma belíssima festa, sabe do que estou falando.
Estes 10 mil torcedores apaixonados estavam lá mesmo sendo desencorajados de todos os jeitos de ir ao estádio. Foram e reafirmaram sua paixão. Qualquer projeto só será bem sucedido, portanto, se estiver permanentemente conectado com a massa alvinegra, conexão que a empresa FPSA perdeu há muito tempo.
Fotos: Carlos Amorim/Figueirense