Hora de democratizar o Figueira

Atualmente, o Figueirense tem menos de 300 sócios patrimoniais. São eles que decidem os destinos do clube, elegendo o Conselho Deliberativo, que, além de fiscalizar e apreciar proposições vindas da diretoria administrativa, elege os responsáveis por dirigir o clube.

Se você, no entanto, quiser se juntar a eles, não poderá, porque há um bom tempo o clube não abre a venda de títulos patrimoniais. Assim , o Figueira vive uma situação peculiar. Menos de 300 pessoas têm a incumbência de formar uma chapa de 100 titulares e 50 suplentes para compor o Conselho Deliberativo. Quer dizer, mais da metade dos votantes também será eleita.

Atualmente o Figueira tem, no mínimo, 10 mil sócios torcedores. São eles que em boa parte sustentam financeiramente o clube. Seu único direito, porém, é a uma cadeira no estádio. Isso se pagar a mensalidade em dia. É um mero locatário de cadeira.

Embora muitos torcedores alvinegros não acreditem, o Figueirense inovou ao revitalizar a modalidade de sócio torcedor. Depois de fracassar em vários clubes anteriormente, a experiência foi bem sucedida no Figueira e serviu de modelo para vários outras agremiações que investiram na proposta.

O próprio Internacional, hoje o clube com mais sócios no Brasil, mandou gente do seu departamento de marketing para estudar como funcionava o negócio no Figueirense. Só que o Inter aperfeiçoou o processo, dando direito de voto ao sócio torcedor, enquanto o Figueira parou na metade do caminho.

Uma rápida olhada no Estatuto do Internacional revela que o clube incluiu o sócio torcedor como uma das modalidades de sócio patrimonial (letra “a” do inciso IV do artigo 5º: “o adquirente do direito de uso de cadeira locada, enquanto vigente o respectivo contrato”).

Assim, ele pode votar e ser votado nas eleições do clube. Além de estar em dia com suas contribuições, são apenas duas exigências para que ele participe do processo eleitoral: ter mais de 16 anos e fazer parte do quadro social até o dia 31 de dezembro do ano anterior à realização da Assembléia Geral.

O Grêmio tem um modelo parecido. Abre a possibilidade do sócio cessionário de cadeira se transformar em sócio efetivo ao final do contrato – não sei a duração deste contrato, acredito ques seja de um ano – e a partir daí, ele pode participar do processo eleitoral.

O Figueirense precisa também democratizar-se, revitalizar-se, oxigenar-se. O meio mais democrático, transparente e aberto é dar o direito de votar e ser votado aos milhares de sócios torcedores que o clube tem.

A era do clube de cota acabou. Os clubes sociais, dos tempos das piscinas, quadras, ginásios e bailes para os sócios que pagavam a jóia e compravam o título patrimonial, estão morrendo aos poucos. São praticamente inviáveis financeiramente, estão se desfazendo de patrimônio para estender sua sobrevivência por mais um tempo e cada vez contam com menos sócios.

O Figueirense nunca foi um clube social na acepção da palavra. Mais valia ser sócio do LIC, do Doze, do Lira ou do Seis, que ofereciam espaços de lazer para seus associados. O Furacão Alvinegro sempre foi um clube de futebol e é por isso que sobrevive até hoje, enquanto outros clubes sociais caminham para o desaparecimento.

Nada mais justo, portanto, que garanta a participação de seus torcedores na vida política do clube. Não me incomoda que, se um dia o clube acabar, o estádio Orlando Scarpelli seja dividido em 200  pedaços e entregue aos sócios patrimoniais, legalmente os legítimos proprietários do clube. Até porque o Figueira deixar de existir é algo que ninguém quer, seja sócio patrimonial, sócio torcedor ou simplesmente torcedor.

Em 2010, tem eleição para renovar o Conselho Deliberativo. Vivemos o momento ideal para abrir o processo de discussão sobre a democratização do clube e garantir a participação de todas as modalidades de sócios. É desse modo que o Figueirense se tornará mais forte, mais vivo e mais vencedor.

Notas alvinegras

  • Sou sócio do Figueirense há 10 anos. Por valores atuais, já botei uns 12 mil reais no clube. Merecia ou não ter direito de participar da vida do clube mais intensamente? Há milhares de outros torcedores na mesma situação.
  • O clube já poderia ser mais transparente de forma mais simples, prosaica e sem custo. É só publicar os balanços financeiros, o estatuto e a relação de conselheiros no site.
  • Neste domingo, os juniores voltam a campo pelo Brasileiro Sub-20, contra o Santo André, que ainda não pontuou na competição. Uma vitória deixa a classificação alvinegra para a segunda fase muito bem encaminhada.
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About Ney Pacheco

Jornalista, aprendeu a amar o Figueira ainda nos tempos das arquibancadas metálicas. Viu Toninho, Marcos Cavalo, Sérgio Lopes, Pinga e Casagrande jogarem, mas tem uma vaga lembrança. Nascido em 1968 em Itu (SP), veio para Florianópolis aos três anos de idade, em 1971. Viu o time cair para a segunda divisão estadual, foi ao Scarpelli ver jogo contra o Flamengo de Capoeiras, esperou 20 anos para comemorar um título estadual e saboreou cada bom momento dos últimos 10 anos.

12 thoughts on “Hora de democratizar o Figueira

  1. Sócio torcedor participativo significa sócio torcedor comprometido; cria-se uma nova consciência social e, provavelmente, diminuirá a quantidade de sócio de resultado, aquele que devolve a cadeira quando o time vai mal. Seria interessante uma pesquisa nesses clubes em que o sócio torcedor vota sobre o percentual de inadimplência ou desistência.

  2. È complicado isso! sobre os 300 sócios patrimoniais ninguém sabe realmente quantos são, porque alguns não guardaram seus títulos. Eu inclusive quando ficou bagunçado joguei fora e não tenho como provar.Sobre o direito de sócios votarem, acho difícil. Principalmente se continuar a parceria com A FP. Por eles nem tem presidente ainda mais conselho.Se isso continuar como eles querem, nem torcedor vai ter mais.

  3. Xuxa, meu avô é socio patrimonial e na carteirinha dele tem essa nomenclatura na categoria, assim como na minha tem “cessionário”.
    Quanto a ideia de mais socios patrimoniais, já falei anteriormente que essa é uma maneira de alavancar mais dinheiro ao Clube e também de democratizar. Ao meu ver, o Conselho Deliberativo está nos representando bem, mas caso eu não ache mais isso não tenho como mudar a situação.

  4. Acho ate que na atual situação, podia ser pensado uma maneira de tipo o pagamento de uma jóia, para se ter direito a participar da diretoria ou conselho, explico, todos os sócios tem direito a voto, porem tendo uns 1000 que adquiriam uma espécie de jóia, onde seu nome ou chapa ficaria a disposição para ser votados pelos sócios. Pessoal só uma sugestão, não quero mudar

  5. fui socio qd tinha time bom pra jogar, depois que venderam td e em 2008 foi akele time medonho, nem quero ser sócio ainda + para votar.

  6. É isso ai ney. Infelizmente por muitos anos deixamos as cozas acontecerem e não tivemos a atitude de lutar por nossos direitos.

    Mais agora chegou a nossa hora, vamos lutar e trazer novamento o Figueira para o POVO.

    Um abraço!

  7. Sobre alguns comentários, aqui no blog, dos nossos torcedores alvinegros, acho uma discussão inócua falar que o Figueira deve “ser do povo” ou “devolver o Figueira ao povo”. Ele sempre foi do povo e continuará sendo, aconteça o que acontecer. As promoções ocorreram e o povão compareceu. Além do mais, existem várias categorias de sócios, ficando dessa forma bastante acessível o acesso do nosso “povão alvinegro”. Não concordo que seja dado direito de voto aos sócios, já que entaremos num terreno movediço, onde poderão aperecer oportunistas com objetivos extra-clubes.

  8. Pingback: De volta para o futuro- Ney Pacheco

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