Para que federação?

Alguns comentários aqui e em outros blogs sobre a agressão do filho do Delfim ao jornalista Rodrigo Santos foram no sentido de pedir mudanças na Federação Catarinense de Futebol.

Eu vou um pouco mais longe: para que federação?

Conceitualmente, uma federação de futebol – não vou me meter a falar em outros esportes – é uma atravessadora, que vive da riqueza produzida pelos clubes. E o que ela dá em troca? O que ela faz em retribuição? Absolutamente nada. Não é só a Federação Catarinense. São todas.

A Federação Paulista, que muita gente usa como exemplo, está sentada em cima de milhões enquanto clubes tradicionais morrem à mingua. O que mais tem no interior paulista atualmente é time de empresário.

Os clubes catarinenses, que vivem muito mal das pernas, pagam o salário do Delfinzinho e mantêm o grande cabidão que é a FCF. Houve uma época que o genro do presidente da federação também ocupava um cargo por lá.

A partir da Constituição Federal de 1988, diminuiu a ingerência do Estado na regulação de entidades associativas. As federações ficaram livres para mudarem estatutos, definir durações de mandatos, permitir reeleições sucessivas e eternas. Assim, Delfim Peixoto Filho está à frente da FCF desde 1985 e, provavelmente, só sairá quando bem entender.

Já ouvi dizer que o Estatuto da FCF determina que quem quiser registrar uma chapa para concorrer à eleição tem que apresentar uma lista de apoio subscrita por um percentual xis de clubes e ligas para poder participar do pleito.

Tentei confirmar se a informação é correta, mas o estatuto da federação não está no site da entidade – ou então está lá muito bem escondido.

Partindo do princípio que a informação é correta, são duas excrescências. A primeira porque permite que os movimentos de uma eventual oposição sejam monitorados e que as ligas e clubes que resolverem apoiá-la sejam perseguidos e reprimidos. A segunda porque cerceia o processo democrático, já que faz muita intenção de ser oposição morrer na casca por não conseguir cumprir exigências estatutárias absurdas como essa.

Outra excrescência é que para eleger o presidente da federação votam ligas amadoras e clubes profissionais. É um absurdo porque mistura água e óleo. Clubes profissionais e ligas têm interesses e propósitos muito distintos.

Você pode dizer, a federação organiza os campeonatos.

Nada. É tudo decidido no Conselho Arbitral que reúne os clubes. Uma liga reunindo os clubes de cada divisão não precisa da estrutura paquidérmica de uma federação e decide qual a fórmula da competição do mesmo jeito. Um assessor jurídico competente redige e a apresenta o regulamento do campeonato para aprovação dos participantes do torneio em questão.

Ah, mas a federação cuida das arbitragens.

Pois não devia. Aqui em SC, a comissão de arbitragem é só para constar. Quem escolhe, promove, põe na geladeira, escala, enche a bola dos juizes é o presidente da FCF. Recentemente, inclusive, se soube que o sorteio também é só para enganar trouxa – notícia que motivou o adorável Delfinzinho a agredir o Rodrigo Santos.

Os clubes podem eleger uma comissão de arbitragem independente, que irá selecionar os árbitros de acordo com sua capacidade e competência. Os juizes, por sua vez, podem ser organizar numa cooperativa ou num sindicato. O futebol profissional não precisa de um quadro com centenas de árbitros e auxiliares. Não precisa ficar promovendo juiz para agradar a liga daqui ou de acolá. Seleciona os melhores e pronto. A federação que dê atenção às ligas.

A federação cuida do registro dos jogadores, alguém pode lembrar.

Para fazer isso cobra taxas altíssimas e não serve nem para alertar os clubes, que pagam para manter a parafernália toda, que o fulano ou o beltrano está irregular e não pode ser escalado. Deve haver maneiras mais baratas e eficientes de se organizar o registro e a transferência de atletas.

O TJD é um órgão independente – ao menos deveria ser – e, portanto, não precisa de federação para funcionar. Aliás, podia se discutir uma forma de se instituir comissões disciplinares para evitar que julgamentos virem circos que durem meses. O tempo de uma competição esportiva não é o mesmo da vida real e a legislação atual não enxerga isso.

É um tema complicado e é meio utópico discutir nos termos expostos acima. Das ligas à Fifa, e estrutura federativa faz girar um monte de grana e sustenta um bocado de chupim e esse pessoal não vai vender barato sua saída de cena.

Agora que essa estrutura faz muito pouco para o desenvolvimento do esporte e para o crescimento dos clubes isso é fato também. O futebol passaria bem melhor sem as federações e quem sabe se dê conta disso um dia.

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About Ney Pacheco

Jornalista, aprendeu a amar o Figueira ainda nos tempos das arquibancadas metálicas. Viu Toninho, Marcos Cavalo, Sérgio Lopes, Pinga e Casagrande jogarem, mas tem uma vaga lembrança. Nascido em 1968 em Itu (SP), veio para Florianópolis aos três anos de idade, em 1971. Viu o time cair para a segunda divisão estadual, foi ao Scarpelli ver jogo contra o Flamengo de Capoeiras, esperou 20 anos para comemorar um título estadual e saboreou cada bom momento dos últimos 10 anos.

17 thoughts on “Para que federação?

  1. Brilhante Ney.
    O fato de que alguém pense isso já é um alento, uma esperança de dias melhores para o nosso futebol.
    Mas realmente é muito difícil quebrar esta superestrutura porque junto com ela existem vários outros negócios envolvidos, política e economicamente.
    Aposto que se tentarmos botar uma faixa no alambrado do Scarpelli, escrito FORA DELFIM, na hora a nossa “grande” PM manda tirar.

  2. Olá Ney!

    O que espanta nisso tudo não foi agressão praticada por um membro da federação,mas o descaso da mídia falada,principalmente a RBs nos seus programas esportivos. A tvcom simplesmente limtou-se a uma nota discreta nada mais do que isso,já o campo crítico deu mais enfase ao acontecimento. O programa que mais atacou a covardia foi o jornal do meio dia da tvrecord do radialista Hélio Costa.Enquanto isso quando o juíz ou banderinha eram o pau como solto por várias semanas,meses e anos. É o caso do campeonato de l999 quando o Figueirense venceu com um gol irregular, até hoje lembrado pela mídia. Assim não dá para entender a nossa imprensa falada.

  3. Excelente comentário. As federações de futebol, assim como a CBF tornaram-se ditaduras disfarçadas. É inconcebível que em estados democráticos de direito sobrevivam essas anomalias. Há que se registrar também que por trás disso tudo encontra-se a mídia eletrônica, que não bate de frente contra as federações prá não prejudicar os seus interesses. O tema é utópico e complicado, Ney, mas você demonstrou sua independência ao tratar do assunto. Fica o registro de que nem todas as vozes concordam com tal estado de coisas.

  4. Parabéns pelo texto. Um dia talvez as coisas mudem. Se acabaram com os privilégios dos cartórios, quem sabe mudanças ocorram também no futebol, quebrando essas gestões vitalícias dos mesmos de sempre.
    Quanto à agressão ao radialista de Brusque, foi mais uma, apenas, perpetrada pelo tal Delfinzinho, sem muito alarde por parte da imprensa da Capital. Essa era a hora de fazer valer o corporativismo na mídia, com uma defesa enérgica do colega agredido. No entanto, o caso morreu ali.
    No país do futebol, quem mais lucra são os empresários e as federações. Fora alguns poucos jogadores privilegiados, como o Bruno, por exemplo, que faturava só uns 200 mil por mês.

  5. É isto aí, Pachecão!

    Até para os cartórios o Conselho Nacional de Justiça exigiu o cumprimento da Constituição, e obrigou o concurso público.
    Então, daqui a pouco tempo a única comparação possível destas “fede”-rações será com as velhas capitanias hereditárias.
    Abaixo a sacanagem! Ou melhor, viva a sacanagem – mas só se for da boa – vocês sabem do que eu estou falando…

  6. Caro Ney,

    A solução é a criação de ligas de futebol para administrar os campeonatos bem como os contratos de tv.

    Ficaria com as federações a tarefa de escalação dos árbitros.

    Além disso, o resultado do trabalho das federações é insatisfatório pois seus dirigente têm cadeiras vitalícias.

    Presidente Lula já afirmou que o mandato do presidente da CBF deveria ser de 8 anos.

    • Prezado Elmo,

      Ao Presidente Lula foi perguntado se ELE sabia RESPONDER porque o cavalo caga uma pelota seca; a vaca caga uma pasta e o cabrito caga em bolinhas; já que TODOS comem a mesma coisa: CAPIM.
      ELE RESPONDEU QUE não tinha a menor idéia!
      Ora bolas! Se ELE não entende de MERDA NENHUMA, por que diabos vai querer dar palpite neste negócio de CBF?

  7. Francamente meu caro colega, deveria se informar um pouco melhor sobre as funções de uma federação e de uma liga, por favor, leia os estatudos antes de supor oque cada uma faz, não iremos nem discutir a funcionalidade, mas gostaria de salientar a necessidade da existência. podemos dizer que precisa melhorar, mas comentários como esse fere a luta de muita gente que realmente amava o esporte, e lutou muito pra chegar onde estamos hoje.

    • Claudia,

      Eu leria os estatutos da FCF – não digo com prazer -, mas onde eles estão? Consegues uma cópia para mim?

    • CLAUDIA MARIA,

      Se FEDERAÇÃO de qualquer coisa fosse algo BOM, teríamos centenas de FEDERAÇÕES para promover SAÚDE, EDUCAÇÃO e SEGURANÇA para o povo brasileiro.
      Como não serve pra nada (mas serve pra QUEM está à frente dela) desde já afirmo que você está CONTRA NóS (como diria o Dunga) nesta sua defesa das Federações.
      Você não passa de um DELFIM de saias!

  8. A Cláudia Maria falou muito bem quando afirmam que “[...] muita gente que realmente amava o esporte [...]”, isso mesmo minha cara: amavam. É fato, indiscutível, que eles (Dirigentes da Federação) amam agora é o dinheiro e o poder de estarem a frente de uma entidade que (des)organiza a maior paixão nacional.

    É uma pena que se trate de um circulo vicioso, no qual poucos têm o poder de decisão, principalmente por se tratar de uma associação privada e que pode relegar toda e qualquer veia de democracia e sucessão.

    E acrescento mais, nosso modelo de organização há muito já fora abolido pelos países Europeus, que utilizam as ligas como responsáveis pela organização dos campeonatos.

    Parabéns Ney pela reflexão.

    abraço

  9. Excelente!

    Mas Ney, só lhe oferecendo um contraponto…

    No caso das chamadas “Associações” de futebol, que não são federações, não há diferença?

    Foi uma atitude do governo espanhol juntamente com sua associação de futebol (e claro, uma grande ajudinha do Barcelona) que permitiu formar uma geração capaz de ser campeã do mundo.

    Claro, tenho pavor da FCF e mais ainda da CBF, mas um órgão inter-clubes pra promover o desenvolvimento do esporte é uma preocupação válida.

  10. Espanta-me a passividade os clubes, que essa patota no comando da FCF. Isso prova que a sujeira no futebol catarinense não é exclusividade da FCF e que há dirigentes de clubes corruptos envolvidos nas maracutaias também.

    “Ah, mas pode ser que seja apenas incompetência, e não desonestidade”

    Bom, hoje um senhor fumador de charutos e usuário de chapéus cafonas (veja bem, não estou citando nomes) chegou a afirmar que aquela foto na qual o Rodrigo aparece ensanguentado foi produzida no Photoshop. Eu juro que tento, mas é impossível crer na integridade de um sujeito desses.

    Abraço.
    Renan,
    DaleTigre.com

  11. Prezado . . .
    Seu texto apesar de utópico, é, faz muito tempo, um anseio da sociedade esportiva nacional.
    Por outro lado, os “clubes” elegem estes canalhas todos para, também, tirar proveito em causa própria: vetar árbitros, agilizar registros de atletas, descaracterizar punições nos julgamentos dos atletas e etc.
    Sem falar na “máfia” que se tornou este negócio de “federação” (atenho-me ao futebol)seja vista a questão do recolhimento de INSS das rendas dos jogos. Então, “santo” é que não iremos encontrar no mundo do futebol. Nem mesmo o torcedor pode se intitular o “santo” da história. Até porque, de princípio, ele TORCE não só para que seu time vença. É preciso que o rival PERCA, para então estar completa a felicidade do torcedor. E querer “mal” ao próximo é coisa de “diabo”, não de “santo”.

  12. Fernando,

    Aqui não é lugar para discutir política.

    Podemos debatê-la em outros blogs ou orkut, mas vou opinar apenas uma coisa: Lula pode não ter instrução formal, mas ele é mil vezes inteligente que vc.

    Fique no seu lugar ok!!

  13. Pingback: Fora DELFIM! : Frutilau Inutilidades

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