Sobre malas e mistos

Virou tema candente nos bate-bocas esportivos. Aqui e acolá se condena as malas que incentivam times desinteressados e o uso de times mistos ou reservas por times mais desinteressados ainda.

É claro que a ética transcende as circunstâncias. Se depender exclusivamente das circunstâncias, não é ética. E princípios devem ser louvados e respeitados. Só que nem tudo é preto no branco, puro bem contra puro mal.

É oportuno que o incentivo financeiro dado por um terceiro interessado venha à baila, mas a discussão deve ser tão velha quanto o futebol. A mala deve ter aparecido no futebol um minuto depois que o time C percebeu que dependia da vitória do time A sobre o time B para ganhar uma posição acima na tábua de classificação.

A imprensa esportiva debate o tema como se a remuneração fosse definida em reuniões entre o presidente de um clube e o presidente de outro, enquanto, na prática, tudo deve se resolver nos bastidores. A diretoria de um clube pode pedir para alguém que não a integra fazer contato com jogadores do outro time. Ou, como é mais comum, e não há como impedir, 20 torcedores abonados fazem uma vaquinha, casam 10 mil reais de cada um, pedem para um jogador do seu clube fazer contato com um conhecido que joga no outro time e combinar o incentivo.

Como os jogadores vêem isso? Os que vão receber, só querem a grana – e quem não iria querer? Se vão me pagar mais para fazer o que eu já sou pago para fazer, qual o problema? Os do time que será beneficiado pelo resultado alheio podem até ficar na bronca se estiverem com os salários atrasados. Mesmo assim podem ser simplesmente pragmáticos. Se o time emissário da mala for rebaixado, ou não se classificar para a Libertadores ou não for campeão, aí que fica mais difícil receber o que estiver em atraso. Então podem encarar como um esforço adicional da direção do clube a iniciativa de remeter a grana. “Os caras estão fazendo de tudo para a gente alcançar o ‘objetivo’”.

O time deve utilizar o que tem melhor à disposição durante todo o campeonato, para não prejudicar ou beneficiar ninguém. É outro princípio corretíssimo. Só que o futebol não está solto no éter. O primeiro problema, gravíssimo, é o calendário.

A temporada para o Figueira, por exemplo, termina no dia 7 de dezembro. Os jogadores entram de férias no dia 8. O primeiro jogo do estadual de 2009 está marcado para 18 de janeiro. Com 30 dias de férias, os atletas retornam em 7 de janeiro e, na prática, terão uma semana de pré-temporada até estrear no campeonato catarinense. É uma insanidade.

Se a situação do clube já estivesse resolvida, rebaixado ou livre do risco de cair, valeria a pena utilizar o time inteiro até o fim do campeonato? Não seria mais produtivo dispensar quem não interessa, dar férias para quem ficar e ter mais tempo para se preparar e começar 2009 bem?

O calendário do futebol brasileiro já melhorou bastante diante do que era, mas ainda tem muito problemas. As rodadas iniciais da Libertadores e da Copa do Brasil são fracionadas e estendidas por um longo período para a TV ter o que mostrar. Depois, quando o bicho começa a pegar, os jogos acontecem toda semana. Para piorar, as duas competições são espremidas no primeiro semestre, quando seria mais lógico durarem o ano todo.

Portanto, a busca pelo ideal é louvável, tanto quanto a busca pelas condições que permitam que este ideal fique mais próximo. 

2 thoughts on “Sobre malas e mistos

  1. Bom, mais uma vez é o lucro que viabiliza tudo, tanto a mala, quanto o calendario, a TV que financia o futebol, ela quer retorno, nem que para isto muda-se o calendario.

  2. O esporte, em todos os sentidos, deveria ser mais respeitado. Eu ñ tenho duvida nenhuma que existe muita “mala” de todos os tipos por aí. Principalmente a “preta”. Nenhuma deveria existir.

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