Terra de ninguém

Enquanto a Chapecoense era eliminada da Copa do Brasil pelo Internacional sem necessidade do jogo da volta, a RBS TV, detentora dos direitos de transmissão da competição, transmitia para Florianópolis o jogo entre Flamengo e Nacional do Uruguai pela Taça Libertadores.

Está certo que uma emissora de TV é um empreendimento comercial, que visa o lucro, e assim o critério da audiência pesa na definição do que será transmitido. Mas também é certo que um canal aberto de TV é uma concessão pública e algum tipo de compromisso com a identidade regional deveria ser exigido.

No ano passado, somente os confrontos do Figueirense na semifinal e final da Copa do Brasil foram transmitidos para todo o estado. Provavelmente porque foram contra times cariocas, Botafogo e Fluminense, respectivamente. Os jogos das fases anteriores só foram transmitidos para a Grande Florianópolis.

Ainda no ano passado, o Figueirense não teve um mísero jogo do brasileiro da série A transmitido para o estado pela TV aberta. O mesmo vai se repetir no primeiro turno do campeonato nacional desse ano. Para ver o Figueira jogar fora de casa só pela Sportv (muito de vez em quando) e pelo pay-per-view. Não sei qual a dificuldade de impor escolhas à grade da Globo, mas duvido muito que a RBS do Rio Grande do Sul se submeta à transmissão de jogos de times do Rio e de São Paulo em vez de exibir partidas de Grêmio e Inter. Também duvido muito que a emissora deixasse de transmitir uma partida entre Guarany de Bagé e Grêmio (ou Inter) pela quarta rodada da quinta fase do sexto turno do estadual para mostrar uma decisão da Libertadores entre Flamengo e Fluminense.

Assim, Santa Catarina continua sendo terra de ninguém. É claro que as rivalidades regionais têm um peso importante na escolha do time de coração e muita gente prefere torcer por um time sediado a 2 mil km de distância, do qual, muito provavelmente, ele nunca verá um jogo ao vivo no estádio, do que torcer por um time de outra região do estado. Ou talvez veja um ou outro jogo quando esse time vier jogar no Scarpelli.

A TV, no entanto, poderia ajudar a quebrar essa resistência. Vendo o Figueirense conquistar grandes resultados em nível nacional agora, ou Joinville e Criciúma em outros tempos, o torcedor de Blumenau, Itajaí ou Chapecó poderia se identificar com um time do próprio estado, reforçando o orgulho de ser catarinense antes de tudo.

É uma questão complexa, mas a função da TV, assim como o rádio em outros tempos, na construção da mitologia dos grandes clubes brasileiros e na penetração de times de outros estados em Santa Catarina merecia ser mais bem estudada. É o velho Dilema Tostines aplicado ao futebol: Flamengo e Corinthians não saem da TV porque são populares ou são populares porque não saem da TV?

Alguém se habilita a responder?

3 thoughts on “Terra de ninguém

  1. Rapa, se a midia dizer que pau é pedra, até nós vamos acreditar nisso. Tenho observado muita coisa na tv, em relação a alguns times e torcidas, e quando constato ao vivo não é nada disso.
    veja exemplo: Gritaram para os quatro cantos que a ressacola era a bombonera, que a torcida do mangue estava fazendo a diferença.Fui no clássico, e qualé o queÊ ? 1200 Alvinegros calndo a boca de sei lá quantos bananas de pijams…

  2. Pingback: Terra de ninguém – Capítulo II- Ney Pacheco

  3. A dificuldade em impor algo a qualquer emissora é simples: A emissora visa o interesse da maioria. Se a maioria quer ver qualquer jogo ao invés do jogo do Figueira, então o pedido da maioria será atendido, porque assim é que se ganha mais dinheiro e a emissora existe para essa finalidade. E qualquer time é time do mundo, não existe essa de “torcer pra time regional” ou “torcer pra quem posso ver ao vivo” por um orgulho sem sentido. Se fosse seguir essa ideia, a Seleção Brasileira não teria quase nada de torcedor. Quantos brasileiros já assistiram a um jogo ao vivo da Seleção? Ela mais jogou fora daqui do que o contrário.

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