Torcer é só ir na boa?

A máxima de que torcedor brasileiro gosta é de vencer e não de torcer é mais verdadeira a cada dia. Outro dia li num blog que duro era botar 20 mil pessoas no estádio na 25ª rodada da terceira divisão com o teu time na 12ª posição, ou seja, sem ter mais nada o que fazer no campeonato, nem subir, nem cair. E isso acontece. Fora do Brasil. Aqui, muito torcedor adora manifestar seu amor ou sua insatisfação com o time sem botar os pés no estádio.

A torcida do Figueira anda nessa fase. A diretoria não tem ajudado, o time é fraco, a campanha é ruim, o campeonato estadual não anima, mas tem torcedor que depois de passar sete ou oito anos comendo filé mignon desaprendeu a encarar uma carne de pescoço. Aí um monte de gente prefere ficar choramingando e resmungando do que reafirmar seu amor ao clube indo ao estádio.

É uma situação paradoxal. O torcedor brasileiro adora abandonar seu time à própria sorte, quando não se vira contra ele, e adora fazer festa quando o time está jogando o fino. Ora, quando o time está voando, nem precisa de torcida. Atropela os adversários até com portões fechados. Aí quando está mal, seu próprio torcedor é o primeiro a abandoná-lo. Não entendo muito bem isso, mas é a prática corrente em quase todos os estádios brasileiros.

Já ouviu falar num time chamado Huddersfield Town? Está na 14ª posição da terceira divisão da Inglaterra, com 51 pontos em 38 jogos. Faltando oito rodadas para terminar o campeonato, está 13 pontos atrás do sexto colocado, último classificado para o play-off do acesso – lá, os dois primeiros sobem direto e do terceiro ao sexto disputam um mata-mata para definir o terceiro promovido – e 12 pontos à frente do primeiro time da zona do rebaixamento – dos 24 participantes, quatro caem para a quarta divisão. Mesmo assim, o Huddersfield tem a terceira média de público da competição, com 13.390 pagantes por jogo. Só perde para o líder Leicester City e para o quinto colocado, Leeds United, um grande time inglês que quase faliu e tenta voltar a seus dias de glória. Isso sim é comprometimento.

Um comprometimento que a torcida do Figueira também que terá que ter na segunda divisão. A diretoria do clube tem que fazer a sua parte e montar um time capaz de brigar pelo acesso. Mas o torcedor não pode se iludir, pensando que o Furacão Alvinegro vai passear na série B como fez o Corinthians no ano passado.

Aliás, o Figueira vai ter que realizar uma grande proeza, que só os ditos grandes do futebol brasileiro fizeram nos últimos anos. Bater e voltar é tarefa só alcançada por Palmeiras, Botafogo, Atlético Mineiro, Grêmio e Corinthians. O Fortaleza subiu, caiu, subiu de novo, ficou dois anos na série A, caiu outra vez e ainda não voltou. O Sport passou quatro ou cinco anos na segunda divisão. Bahia e Vitória foram bater na série C. O rubro-negro baiano voltou para a série A, mas o tricolor ainda não. O Santa Cruz vai encarar uma série D. O Coritiba amargou dois anos na segundona.

Então, é possível, mas não será fácil. E se o time que tem que jogar muito mais dentro de campo, a torcida tem que mudar radicalmente sua atitude fora dele. Se não, o caminho da volta será bem mais longo e tortuoso.

7 thoughts on “Torcer é só ir na boa?

  1. Ney, desde que eu comecei a torcer pelo Figueira (ainda na década de 70), todo jogo é um compromisso. Não importa se é contra o Flamengo ou contra o União Timbó. Se é por campeonato brasileiro ou amistoso. Desde aquele período, um número próximo de 4.000 torcedores sempre se mostrou fiel, aumentando dependendo da condição do time.
    Assim, quarta-feira, de novo tenho compromisso: torcer pelo Figueira, valendo a partida ou não.

  2. Cada dia que passa, tá mais dificil de fazer um comentário no teu blog. Afinal, dizes tudo, com tanta perícia que é só ler e sair pro abraço. Parabéns mais uma vez. Eu sou torcedor das horas boas e ruins. Continuo sócio e vou continuar, mesmo que seja na C (sai pra lá bruxa feia). Espero que a maior e melhor torcida de SC dê essa demonstração de amor.

  3. Eu vou em todos os jogos que posso do Figueira, tenho 24 anos apenas e nem me lembro na primeira vez que eu fui, de tão guri que eu era. Infelizmente/Felizmente agora nao posso ir em todos os jogos por curso a Faculdade de Direito no período noturno, mas fico naquela agonia quendo o Figueira joga. Na real, eu só perdi um jogo esse ano, que foi o da semana passada, pois 20:30 no meu caso é complicado, são 4 faltas em uma noite.

    É complicado cara, mas creio que a boa faze vai voltar, e espero que todos aqueles torcedores que falaram que iam até na C com o Figueira se comprometam e lotem o estádio sempre.

    Falow rapazi.

  4. Acompanho o Figueira desde os dois anos de idade, é muito difícil eu perder um jogo no estádio, fora dele também, em virtude do payperview. Já peguei muita carne de pescoço – segundona do catarinense, etc – e essa fase de agora gente não é nada! Vamos cobrar sim, mas com responsabilidade, pois não adianta vaiar até aremesso lateral, principalmente nas sociais, onde assisto aos jogos. Tem gente nas cobertas que vai aos jogos só pra vaiar, chega a fazer cara feia quando sai gol do Figueira, deveria ficar em casa. Não será agora que deixarei de acompanhar meu Figueira, apoiando sempre, cobrando de forma racional, mas nunca desisitindo. Minha família tem seis cadeiras nas sociais e mais duas no setor B, meu pai me ensinou a amar o Figueira assim como meus irmãos, aliás, meu pai tem 82 anos e minha mãe 80, e não perdem jogos. Garantia que vamos subir, não tenho nenhuma, mas com certeza estarei até o fim ao lado do nosso time, pro que der e vier.

    Abs,

    Fabiano

  5. Eu também me considero um torcedor de horas boas e ruins.
    Tenho 21 anos e acompanho o Figueira direto desde 96 e sócio desde 99, apesar de já ter ido a jogos antes, como a final do catarinense de 94.
    O meu coroa já não é o melhor exemplo de torcedor. Foi em todos os jogos do ano passado, mas depois do jogo contra o Jeca aqui ele desistiu.
    Uma coisa que não entendo é que o Figueirense já passou por situações bem piores e a torcida não era assim tão ranzinza. Pelo menos é o que falam os mais velhos. Meu pai disse que o Figueirense, mesmo na segunda divisão do Catarinense teve a melhor média de público do estado.

    Uma coisa que me deixou decepcionado foi o nosso jogo contra o Náutico no ano passado aqui no Scarpelli, eu e mais umas 4 mil fiéis comparecemos no jogo. Era uma decisão pro Figueira e a torcida simplesmente desistiu.
    Aí contra o Inter, que era o filé, deu 17 mil de público.

    Quero de volta aquela torcida que ia pro Scarpelli e xingava o jogador do Figueira, o juiz, chutava o alambrado, cantava, pulava, pintava a cara, levantava e batia palma no ‘Da-lhe Alvinegro’ etc. Meu deus! Uma cena que era tão comum agora eu sinto falta, o estádio inteiro de pé cantando e batendo palma ‘Da-lhe Alvinegro com muito orgulho com muito amor’ era uma cena linda. Me dá até vontade de chorar quando lembro desses momentos.

    Vou parar por aqui.

  6. Pachecão, o Dante tá certo. Tás escrevendo o fino… Pena que inteligência não dá currículo na nossa pobre crônica esportiva.
    Mas falando no assunto, precisamos mais “festeiros” e menos corneteiros.
    Muitos aí estão sempre prontos a tocar as “cornetas” do apocalipse. Futebol é festa, alegria, é a melhor imitação da vida que um esporte pode almejar ser. Mas é isso e pronto – imitação, pois a vida segue. Exijamos qualidade,seriedade, mas sem esquecer disto. Senão, em vez de divertir será meio caminho prum AVC ou um infarto.
    Alegria!

    abraço!!

  7. A torcida do Figueira nunca esteve tão amarga.
    Só quer o filé mesmo.
    Reclamam do time, da diretoria e de tudo, mas não são capazes de demonstrar um pouco de paixão pelo clube, sem generalizar é claro.

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