Incompetência alheia

Tem time fazendo mais força pra cair do que o Figueira. Mesmo com a derrota em casa, o Furacão Alvinegro perdeu apenas uma posição na tabela e mesmo assim no saldo de gols.

Só que não dá para contar com a incompetência alheia o tempo todo. Se não fizer sua parte em campo, vai ficar difícil não descer a ladeira

Venceu o prazo?

Quando consultei o blog Páginas Heróicas Digitais e os torcedores do Cruzeiro comentaram as duas passagens de PC Gusmão pelo time mineiro (leia aqui), um deles afirmou que o treinador funcionava bem por 10 jogos. A partir daí os efeitos da motivação acabavam e sobrava muito pouco. Será que venceu o prazo de validade ou o treinador tem mais para mostrar?

Não é o time dos sonhos…

O futebol brasileiro anda chato. Isso é fato. O nível cai a cada ano, as revelações boas e as não tão boas vão embora rápido e não há como repor com a mesma qualidade num prazo tão curto.

A melhor maneira de constatar como o futebol brasileiro anda chato é assistir a um jogo da série A em que o Figueira não está envolvido. Aí não tem envolvimento emocional, torcida, alegria ou irritação. Somos apenas espectadores e podemos observar o jogo com tranqüilidade e distanciamento. Nesses jogos, mesmo os melhores, o que se vê é muita correria, muito empenho, muita força. Qualidade técnica mesmo é raridade.

Não que o titular deste blog seja um saudosista e deseje a volta do futebol dos tempos em que se amarrava cachorro com lingüiça. O futebol mudou e isso não o torna pior. Só que quando os ótimos, os bons e até os muito mais ou menos vão embora tão rápido, fica faltando técnica, maturidade e categoria.

Durante o ano passado, cheguei à conclusão de que o Figueira tinha armado o time mais fraco tecnicamente desde que voltou à série A em 2002. Havia muito empenho, muita disposição, mas pouca técnica. Havia a qualidade de Chicão, o talento de André Santos, os lampejos de Cleiton Xavier e muita vontade de todos os outros.

Hoje, tenho saudade do time do ano passado. A defesa era mais segura. Os laterais mais ofensivos. O meio-campo era mais ajustado e o ataque mais efetivo. A essa altura do ano dá para afirmar que o time atual é o mais desprovido de técnica desde 2002.

E o que mais espanta é que está cheio de time do mesmo nível ou até pior. Ipatinga, Santos, Atléticos Mineiro e Paranaense, Portuguesa, Náutico, Goiás e Vasco são exemplos disso.

Os investimentos desse ano, inclusive, devem ter sido maiores do que o do ano passado. Em 2007, chegaram Wilson, questionado porque era o quarto ou quinto goleiro do Flamengo, Victor Simões, completamente desconhecido, Cleiton Xavier emprestado do Inter, Peter e Jean Carlos, destaques da Chapecoense no estadual, e Ruy Cabeção, o mais conhecido de todos.

Houve, no entanto, momentos em que o time empolgou, principalmente na Copa do Brasil. Depois fez uma série A relativamente tranqüila e por pouco não assegurou vaga na Sul-Americana. Foi um resultado muito melhor do que se esperava depois do péssimo começo de ano, com uma campanha pífia no campeonato estadual.

…mas é o Figueira

Curiosamente, o momento mais alto do Furacão Alvinegro na temporada passada, quando chegou à final da Copa do Brasil, serviu também para desanimar e afastar boa parte da torcida.

Uma campanha completamente inesperada e que deveria deixar o torcedor orgulhoso virou uma grande decepção e muita gente não se recuperou totalmente até hoje.

Nas conversas, comentários e listas de e-mail, como a Finet, se nota que o desânimo ainda é grande. É claro que o futebol demonstrado pelo time não ajuda a animar, mas no fim das contas é o Figueira que está em campo e a torcida não pode faltar.

Praticamente todos os times da série A perdem qualidade a cada ano. É um problema estrutural do futebol brasileiro e que deveria ser analisado pelos dirigentes de clubes, federações e CBF com mais cuidado em busca de soluções melhores do que simplesmente exportar jogador para fechar as contas.

Hoje, quem lidera o campeonato é o Grêmio, dirigido por Celso Roth. É um time empolgante, recheado de craques? Não. É bem organizado e eficiente. E não muito mais que isso. Paulo Sérgio e Pereira como titulares absolutos são uma prova disso.

Além disso, este blog continua batendo nessa tecla, o Figueira pode jogar mais se PC Gusmão escolher melhor os titulares entre os jogadores que estão a sua disposição. A escalação definida pelo treinador vem influindo diretamente no desempenho do time.

Se PC escalar melhor, vai virar uma maravilha? Não, mas será mais eficiente e qualificado, pode atacar com mais força, errar menos passes, parar de fazer tanta pixotada na defesa.

De qualquer forma, é o Figueira em campo. E na série A. Coisa que muito rival por aí está sonhando há 30 anos. Assim, a torcida alvinegra tem que sair da letargia em que se meteu e ajudar esse time a garantir logo os 45, 50 pontos necessários para assegurar a vaga na primeira divisão de 2009. Quanto mais cedo atingir essa meta, mais cedo poderá traçar outros objetivos.

Não é o time dos sonhos, mas é o Figueira. E o Figueira não pode prescindir da maior e mais fiel torcida de Santa Catarina. Sábado, contra o Vitória, estaremos no Scarpelli.

Apatia castigada

Futebol tem dessas coisas. No primeiro tempo, o Figueirense entrou com uma malemolência e uma apatia irritantes. Foi um time lento, frouxo na marcação, desinteressado do jogo. Parecia que jogava depois uma lauta feijoada regada à cerveja e caipirinha.

O Coritiba, que não tinha nada com isso, se aproveitou desse desligamento todo e fez um a zero logo aos quatro minutos de jogo. A apatia alvinegra continuou, mas o Coxa não resolveu o jogo. Deu a impressão que foi contaminado pela preguiça dos jogadores do Figueirense, além de sofrer com sua própria falta de criatividade.

Diante desse quadro desanimador, sair perdendo por um a zero ao final do primeiro tempo era o menor dos prejuízos. No intervalo, PC Gusmão deve ter distribuído um sal de frutas para a rapaziada empachada e plugou o time na tomada. Aproveitou para fazer a boa substituição de Rafael Coelho por Wellington Amorim e a troca de William Matheus por Bruno Perone, improvisando esdruxulamente Asprilla na lateral esquerda.

Mesmo assim o time melhorou, passou a trabalhar melhor a bola, a jogar no campo de ataque. Em seis minutos, o time chutou três vezes a gol, muito mais do que a produção zero do primeiro tempo – apenas um cruzamento errado de Cleiton Xavier havia sido algo parecido com uma finalização.

Quando Rodrigo Fabri se preparava para entrar, com a intenção de aumentar a força ofensiva do Furacão Alvinegro, Wilson e Bruno Perone, principalmente este, cometeram uma senhora lambança na cobrança de um tiro de meta e entregaram o segundo gol de bandeja para Keirrison. Aí a fatura foi liquidada e logo depois o Coritiba fez o terceiro. Um resultado justo, na soma dos dois tempos, por tudo que o Figueirense não jogou e por tudo que deixou o Coxa jogar.

PC, não inventa

William Matheus já é difícil de engolir, mas se agüenta. O garoto não tem culpa e pode vir a ser um bom zagueiro em breve. Agora, Asprilla de lateral esquerdo é dose. A insistência com o burocrático Leandro Carvalho de volante também não se explica. Jackson parece ser um primeiro volante mais efetivo que ele.

Com o que PC Gusmão tem na mão no momento, não vejo escalação melhor do que Wilson, Léo Matos, Bruno Aguiar, Perone (ou William Matheus) e Leandro Soares (ou Diego); Jackson, Cleiton Xavier, Magal e Rodrigo Fabri. No ataque é ver quem está melhor e escalar, porque nenhum deles conseguiu mostrar regularidade e eficiência para garantir a vaga definitivamente.

Com dois laterais de ofício, que não são nenhuma maravilha, mas ao menos conhecem a posição e podem fazer algo em termos ofensivos, com um meio rápido e com um pouco mais de intimidade com a bola é possível jogar com mais qualidade, sem se expor exageradamente.

É botar essa formação para treinar e entrosá-la na marra. Tem muita gente castigando a bola nesse time e isso tem mais tirado do que garantido pontos ao Figueira.

Outra coisa que PC Gusmão precisa resolver: o time não pega nenhuma segunda bola. Quase nenhum rebote, seja na defesa, seja no ataque, fica com o Figueirense. Cai tudo, quase sempre, nos pés dos adversários. Assim, o time não se livra do sufoco na defesa e não consegue pressionar o adversário. Essa falha não é recente. Vem desde os tempos de Alexandre Gallo e até agora persiste.

A formação definida por PC Gusmão funcionou bem nos primeiros jogos. O time se assentou em campo e deixou de ser presa fácil como estava acontecendo antes. Só que essa fórmula dá sinais nítidos de esgotamento. Está na hora de dar uma chacoalhada na roseira para ver se o time joga mais.

Continuar somando pontos fora de casa

Se não fosse a mão grande de Washington e do juiz Ricardo Marques, o Figueirense somaria hoje seis jogos sem derrota fora do estádio Orlando Scarpelli. Aquele infortúnio contra o Fluminense foi o único fora de casa desde a chegada de PC Gusmão.

Além deste jogo, o cartel do técnico conta com três empates (Palmeiras, Atlético-PR e Internacional) e duas vitórias (Ipatinga e Náutico). Depois da derrota no Maracanã, o Figueira somou mais cinco pontos, em dois empates e uma vitória (Atlético-PR, Inter e Náutico).

Depois de quebrar a má seqüência em casa com a vitória sobre a Portuguesa, é hora, portanto, de arrancar pontos do motivado Coritiba, que faz campanha bem melhor do que o esperado depois de retornar da segundona e tem Dorival Jr., velho conhecido da torcida alvinegra, em seu comando técnico.

Hoje, isso é nítido, o Figueira tem um padrão muito mais bem definido e eficiente de atuar fora de casa do que em casa. Até pela característica de seus jogadores. O Furacão Alvinegro não é um time técnico, mas conta com força e velocidade.

Fora de casa pode se fechar, atrair o adversário e sair no contra-ataque. Se, inclusive, conseguir aperfeiçoar essa transição em velocidade da defesa para o ataque pode obter resultados ainda melhores. Por falhar muito na hora do passe é que o Figueira não conseguiu vencer Atlético-PR e Inter.

O noticiário do dia indica o retorno de Rodrigo Fabri. PC Gusmão, no entanto, o utilizou contra o Náutico e contra o Botafogo para fazer a função de Marquinho, como um segundo volante pela esquerda.

Não creio ser a melhor alternativa. Fabri não sabe marcar e carrega muito a bola. Isso pode ser mais bem aproveitado se ele jogar mais avançado, podendo construir jogadas individuais, tabelar com os atacantes ou até mesmo cavar faltas nas imediações da área adversária.

A solução é simples: manter Magal pela esquerda e recuar Cleiton Xavier para jogar pela direita, deixando Fabri mais avançado.

O Coritiba é um time acertadinho e que vive um bom momento. Não é, porém, nenhum bicho papão. Se o Figueira jogar de forma consciente e organizada pode vencer.

Treino é jogo

PC Gusmão acerta quando diz que os treinos são importantes para escalar o time titular. Não se disputa um campeonato de oito meses e 38 rodadas somente com 11 jogadores. Ainda mais quando o elenco já conta com mais de 35 atletas. É preciso motivar a todos e deixá-los prontos para jogar.

Num campeonato longo como o da série A, as contusões, suspensões e oscilações nas atuações são uma constante. Motivar a todos os jogadores é papel da comissão técnica e afirmar que treino escala jogador é uma maneira não só dos reservas não se jogarem nas cordas, mas também de não deixar os titulares do momento se acomodarem.

Como tudo não é perfeito, se a filosofia é essa, se chega à conclusão que Leandro Soares e Diego não estão jogando nada nos treinos, já que não conseguem ganhar a posição de um zagueiro improvisado na lateral como é o caso de William Matheus.

Arbitragem elegeu o Figueira?

O Figueirense vem sendo visivelmente prejudicado pela arbitragem neste campeonato brasileiro. Desde que voltou à série A, em 2002, o time nunca pôde contar com a simpatia dos árbitros para se dar bem no campeonato. Afinal, tem gente mais graúda no cenário.

Esse ano, no entanto, a situação está pior. Observando a arbitragem de Leonardo Gaciba no jogo contra a Portuguesa me convenci que os juízes estão pensando que sete anos na série A é muito tempo.

Gaciba e seus auxiliares estão entre os melhores do Brasil. Assim, fica difícil botar na conta da incompetência erros crassos e evidentes em marcações de impedimento e numa falta descarada que um zagueiro da Lusa cometeu, ainda no primeiro tempo, em Rafael Coelho que seguia em situação clara de gol. Era lance para expulsão, mas Gaciba mandou o jogo seguir.

A receita é mesma de sempre. Ganhar apesar da arbitragem. Foi isso que o Figueira fez no sábado, como havia feito na decisão do estadual em Criciúma.

Claro que reclamar nos bastidores, buzinar no ouvido da Comissão da Arbitragem e da CBF podem ajudar, mas é dentro do campo que o negócio se resolve e aí o Furacão Alvinegro tem atropelar também a arbitragem.